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É errado e preconceituoso usar “xiita” como sinônimo de “radical”

gustavochacra

26 de junho de 2013 | 12h10

No Brasil, costumam chamar radicais e extremistas de xiitas. Não apenas em conflitos no Oriente Médio, como também em discussões políticas locais (“ala xiita do PT”, por exemplo) e mesmo em debates pessoais. Alguns falam – “Você está sendo xiita”.

Não sei de outro lugar no mundo onde “xiita” seja usado como sinônimo de radical, além do Brasil. Na minha opinião, utilizar a palavra “xiita” para se referir a posições extremistas é preconceituoso e equivocado. Admito, porém, que, entre os brasileiros, a maior parte utiliza por falta de informação, sem ter qualquer problema com esta vertente do islamismo.

A origem da associação de “xiita” com “radical” está na Revolução Islâmica do Irã. Os iranianos são majoritariamente xiitas e esta corrente do islã foi usada como arma ideológica na derruba do xá Reza Pahlevi, um ditador aliado do Ocidente e, curiosamente, também xiita.

O regime que o sucedeu ocupou a embaixada dos EUA em Teerã, mantendo centenas de diplomatas americanos como reféns, além de enforcar iranianos dissidentes em público. Naturalmente, brasileiros que assistiam a estes eventos na TV passaram a ver os xiitas como extremistas. Poucos, claro, dariam importância aos iranianos liberais (e xiitas) de Teerã, com uma vida noturna que não deixava nada a desejar para São Paulo ou de Istambul.

Outro fator que contribuiu para o extremismo xiita foi o uso de ataques suicidas iranianos contra as forças de Saddam Hussein (um sunita secular, na época apoiado pelos EUA) na guerra Irã-Iraque, nos anos 1980. Antes deste período, praticamente não existiam atentados suicidas cometidos por muçulmanos, independentemente da vertente.

O Hezbollah, no Líbano, também serviu para acentuar a associação entre “xiita” e “radical”. O grupo, ao longo da ocupação israelense do sul do Líbano, realizou seis ataques suicidas contra militares de Israel ou seus aliados libaneses e é acusado por outros ataques. Claro, mais uma vez, poucos prestariam atenção a xiitas liberais em Beirute ou mesmo ao Hezbollah ter alguns líderes religiosos tolerando até o aborto.

Desde a saída de Israel do Líbano em 2000, xiitas não cometeram mais atentados suicidas. Não há nenhum xiita preso em Guantánamo. Nenhum xiita integra a rede terrorista Al Qaeda. Quando ocorreu o recente atentado em Boston, ninguém desconfiou de xiitas – e os suspeitos não são mesmo seguidores desta vertente do islamismo.

O terrorismo, neste caso, acabou se tornando mais comum entre os sunitas nas últimas décadas. O Taleban, o Hamas, Bin Laden e a Al Qaeda são sunitas, não xiitas. A Arábia Saudita, que possui um Apartheid contra as mulheres, também é sunita. Todas as monarquias travestidas de ditaduras no Golfo Pérsico são controladas por sunitas.

Claro, não podemos cometer o erro de equiparar sunitas a radicais. Existem muitos sunitas liberais em Beirute, no Cairo, em Damasco e em muitas nações muçulmanas não árabes, como a Turquia, a Indonésia e o Paquistão.

Portanto, para não me alongar demais, é errado usar “xiita” como sinônimo de “radical” por ser preconceituoso e equivocado. Apenas no Brasil, insisto, fazem esta associação, inclusive em órgãos de imprensa. Se uma pessoa for radical ou extremista, use radical ou extremista para descrevê-la, não “xiita”.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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