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Elite na Jordânia, palestinos sonham com retorno a Israel, Cisjordânia e Gaza

gustavochacra

06 de abril de 2009 | 09h00

Em Israel, algumas correntes políticas afirmam que a verdadeira pátria palestina é a Jordânia. O argumento é o de que há quase tantos palestinos quanto jordanianos no país. Até mesmo a rainha Rania é palestina. Esses israelenses têm razão, em parte. Há de fato uma grande quantidade de palestinos na Jordânia, mas a maior parte deles chegou a partir de 1948 e, especialmente, após 1967, como refugiados das guerras árabe-israelenses. São originalmente de cidades onde hoje é Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza.

Como a Jordânia ofereceu cidadania, hoje esses palestinos são também jordanianos. Podem trabalhar, votar e têm todos os direitos dos jordanianos nativos. Um cenário que contrasta com a situação no Líbano, onde os palestinos são confinados em campos de refugiados, sem cidadania e proibidos de exercer uma série de profissões.

Em Amã, diferentemente de Beirute, os palestinos compõem a elite. Enquanto os jordanianos nativos rumaram para empregos públicos, os palestinos dominaram a iniciativa privada, onde conseguiram enriquecer.

Com bons apartamentos, salários elevados e vivendo no que é provavelmente o país mais pacífico da região, eles teriam tudo para se sentir em casa.

Em qualquer rua da capital jordaniana, porém, quando indagados sobre qual seria sua nacionalidade, eles respondem: “Palestinos”. Ainda que sejam nascidos em Amã, dirão que são de Nablus, Jenin ou Belém.

Dos palestinos e descendentes que vivem na Jordânia, há dois grupos. Primeiro, os que deixaram ou foram expulsos de suas terras em 1948 e não podem retornar – a não ser que consigam um visto de Israel.

Como israelenses e jordanianos mantêm relações diplomáticas, teoricamente, cidadãos da Jordânia podem visitar Israel com um visto. No início dos anos 90, depois da assinatura da paz entre Yitzhak Rabin e o rei Hussein, muitos conseguiram.

O problema é que, como parte deles não deixou mais Israel ou os territórios palestinos, os israelenses passaram a ser mais rigorosos.

“Acho humilhante ter de pedir um visto para a minha própria pátria, sendo que, na verdade, é quase certo que não receberei”, disse ao Estado o palestino Abu Shakra.

O segundo grupo são os palestinos que deixaram o território em 1967, que podem visitar a Cisjordânia desde que tenham identidade palestina. Eles devem cruzar a fronteira pela ponte Allenby. O processo é demorado e muitos dizem que são humilhados.

Os palestinos entrevistados pelo Estado reclamaram da maneira como são tratados pelos israelenses. Israel defende-se e afirma que interrogatórios e inspeções são necessárias por questões de segurança.

Existem 2,7 milhões de palestinos e descendentes na Jordânia, dos quais 1,9 milhão são descritos como refugiados, segundo a ONU. É a maior quantidade de refugiados palestinos em todo o mundo, cerca de cinco vezes mais do que no Líbano, que vem em segundo lugar.

Eles não vivem tão longe da terra onde nasceram. Amã está a uma hora da fronteira. Se dirigirem em direção ao sul, durante todo o trajeto observam os territórios palestinos e Israel do outro lado.

A Jordânia, assim como Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza, era parte do Império Otomano até o fim da 1ª Guerra. O território passou para as mãos dos britânicos, que estabeleceram ali uma monarquia aliada: os hashemitas. Sem grandes cidades, a maior parte do território era habitada por beduínos, bem diferente das cidades palestinas, estabelecidas há séculos.

Muitos palestinos que vivem na Jordânia, apesar de possuírem amigos jordanianos, mantêm em seu círculo de amizade mais próximo pessoas que também são originárias de vilas e cidades palestinas. Alguns deles se reuniram na casa de Ashraf Hamadi, em um bairro de classe média alta de Amã, para conceder entrevista ao Estado. Um deles é Muhannad Abu Shakra, diretor comercial de uma empresa jordaniana. Ele é de uma família tradicional de Tulkarem, Cisjordânia.

Em 1948, seus avós e seu pai viviam na cidade de Cesaria, na atual costa israelense. Quando a Guerra Árabe-Israelense começou, retornaram para Tulkarem e nunca mais puderam voltar para a casa deles no litoral. Como Tulkarem ficou nas mãos da Jordânia até 1967, toda a família adquiriu a cidadania jordaniana. Seu pai, anos depois, foi estudar no Cairo. Em uma rota comum aos palestinos de sua geração, conseguiu um emprego e mudou-se para o Kuwait. Casou-se com a mãe de Abu Shakra, que havia conhecido no Egito. A família dela era palestina de Jerusalém, mas, quando criança, perdeu os pais e foi morar com os irmãos mais velhos no Egito.

O casal mudou-se para a Jordânia no fim dos anos 60. Como o tio era ligado à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), o pai dele se sentiu ameaçado após o Setembro Negro, em 1970, quando a monarquia jordaniana matou e expulsou milhares de palestinos. A família de Abu Shakra mudou-se para a Grã-Bretanha, onde ele nasceu. Depois de o pai concluir o doutorado em engenharia, todos voltaram à Jordânia, onde vivem até hoje. A única vez que esteve com o pai em Tulkarem foi em 1981.

Sua história é parecida com a da mulher, Reema Junaidi, uma empresária de moda. Os pais dela são de Nablus. Já o empresário Khaledi Farmawi havia acabado de chegar da China, um dos vários países que ele conhece. Mas nunca esteve nas terras de sua família. Na guerra de 1948, deixaram Jaffa, na atual costa israelense, e se mudaram para Nablus.

“Apesar de conhecer a Cisjordânia, meu sonho é ir para Jaffa, mas não consigo visto. No início dos anos 90 era mais fácil. Mas meu pai sempre se recusou a voltar”, disse Farmawi. Jaffa é hoje praticamente um bairro de Tel-Aviv. A maioria da população é composta por árabes que possuem cidadania israelense.

Lana Nimer, mulher de Farmawi, trabalha como economista do Banco Audi, do Líbano. Ela também é refugiada palestina. Sua família paterna é de Nablus e também foi para o Egito depois da guerra, antes de partir para Amã. Pelo lado materno, é libanesa. Uma de suas melhores amigas é Deema Azza, de uma vila perto de Hebron, que também é refugiada. E o círculo prossegue, sempre com uma história que remonta aos conflitos de 1948 e 1967.

Questionados sobre qual nacionalidade eles mais tinham orgulho – palestina ou jordaniana -, todos responderam a palestina. E gostariam, se pudessem, de se mudar para as cidades de onde vieram. “Ou, pelo menos, comprar uma casa e ir sempre visitar. De certa forma, é difícil deixar Amã, pois já temos bons empregos aqui”, disse Abu Shakra. Em uma discussão sobre o que imaginam ser o futuro para os palestinos, eles divergiram sobre qual a melhor saída. Uns defenderam a criação de um Estado palestino na Cisjordânia e Gaza. Abu Shakra, por outro lado, argumentou a favor de uma solução de um Estado binacional. Mas todos mantêm o sonho de um dia retornar.

Reportagem minha publicada na edição impressa do Estadão

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