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Em 8 meses de Sissi, Egito matou 5 vezes mais do que o Brasil em 20 anos de regime militar

gustavochacra

26 de março de 2014 | 10h40

O Egito, desde a deposição de Mohammad Morsy em julho do ano passado, enfrenta o momento de maior repressão na história moderna do país, iniciada após Segunda Guerra Mundial. O regime do Marechal Sissi supera seus antecessores Nasser, Sadat e Mubarak na violência contra a oposição. Vamos ver algumas informações

1)   Condenação à morte é quase recorde mundial

A condenação à morte de 529 membros da Irmandade Muçulmana pela acusação de terem matado um policial beira o realismo fantástico. O julgamento durou apenas dois dias. Isto é, sem interrupções, equivaleria a julgar 11 acusados por hora, ou um a cada cerca de cinco minutos. Algo impossível em uma justiça transparente.

2) Maior violência na história moderna do Egito

De acordo com artigo do Carnegie Endowment for International Peace publicado nesta terça, desde julho, com a instalação do regime de Sissi, já foram mortas 3.143 pessoas. “Estes números excedem até mesmo os momentos mais sanguinários do Egito desde a revolução militar comandada por Gamal Abdel Nasser em 1952”, diz o artigo

3) A volta do terrorismo

Das mortes, 2.528 foram de manifestantes durante protestos contra o regime – o quíntuplo do total de desaparecidos no regime militar no Brasil ao longo de 20 anos. Nestes embates, morreram ainda 59 policiais. O terrorismo, que voltou a assustar o Egito, ressurgiu e alveja acima de tudo policiais (150 mortos) e soldados (59)

4) Até presidente deposto está preso

Além das vítimas fatais, outros 17 mil egípcios ficaram feridos na repressão ou em outros atos de violência e cerca de 16 mil pessoas estão presas. Entre elas, o presidente deposto Morsy, que segue incomunicável há meses, aparecendo apenas dentro de uma jaula a prova de som durante seu julgamento.

5) Mas por que Sissi é tão popular

Ainda assim, a maior parte da população do Egito, especialmente os de viés mais laico, apoiam incondicionalmente o regime. O Marechal Sissi deve disputar as eleições e, mesmo que estas sejam transparentes, certamente é o favorito. Os egípcios queriam ordem depois da instabilidade que sucedeu a queda de Hosni Mubarak. Muitos temem o retorno da Irmandade Muçulmana ao poder, embora a organização, agora classificada como terrorista pelo novo regime, também conte com apoio popular, especialmente das alas mais conservadoras.

6) Acredite, Mubarak era mais liberal e estável

O Egito, depois de Mubarak, sonhava em ser democrático e estável. Sem dúvida, conseguiu um pouco de democracia. Mas esta era instável. E os egípcios saíram em busca da estabilidade ao derrubar Morsy, ainda que isso significasse sacrificar a democracia. No fim, obtiveram sucesso ao acabar com a democracia, mas fracassaram totalmente na busca da estabilidade. Hoje o Egito é uma ditadura instável. Pior até do que no regime de Mubarak, também uma ditadura, mas, pelo menos, estável.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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