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O interrogatório no aeroporto de Tel AViv

gustavochacra

30 de dezembro de 2008 | 19h35

A partir de hoje, começo uma cobertura on-line do conflito em Gaza.

Estou em Jerusalém. Mas não foi fácil entrar em Israel. Como era esperado, tive problemas na imigração por causa dos meus vistos libaneses e sírios (tenho mais de um de cada país). Tenho sobrenome árabe também, mas “Chacra” muitas vezes não chama a atenção após “Gustavo Cerello”. Ao desembarcar no aeroporto Ben Gurion, de Tel Aviv, segui com os demais passageiros em direção aos guichês israelenses. A fila demorou cerca de 20 minutos. A moça que me atendeu era uma jovem judia etíope. Falei de cara que era jornalista e estive no Líbano e na Síria. Simpática, ela disse que eu precisava ir para uma outra sala. Fui acompanhado de um homem com um uniforme de guarda.

Na sala, com TV e máquinas de coca-cola e café, havia seis pessoas. Nenhum com aparência árabe. Dois eram judeus ortodoxos. Um homem magro de cerca de 40 anos e outro de colete com pinta de escandinavo que trabalha na ONU. Uma menina jovem e uma senhora vestida para ir à Ópera. Os funcionários da imigração entravam e saiam chamando os passageiros pelo nome. Na minha vez, entrou uma menina baixa, lorinha, com sardas no rosto, vestindo jeans e um casaco de zíper com desenhos infantis. Acho que apenas em Israel somos entrevistados por meninas bonitas como ela. “Gustavo, venha comigo”, disse em inglês. Fomos para uma sala, na qual ela ficava de frente para o computador. Acredito que nos filmavam. Resumindo, o interrogatório foi mais ou menos assim.

Moça – É a sua primeira vez em Israel?
Eu – Terceira.
Moça – Você tem amigos em Israel?
Eu – Conheço israelenses que estudaram comigo na Columbia, em Nova York. Mas eles ainda moram nos Estados Unidos. Não sei se estão aqui.
Moça – O que você foi fazer no Líbano e na Síria?
Eu – Sou jornalista (mostrei os jornais com as minhas reportagens e a carta de jornal).
Moça – O que está escrito?
(traduzi o texto)
Moça – Você veio cobrir o conflito?
Eu – Vim
Moça – Seus pais são brasileiros? (note que ela perguntou sobre meus pais)
Eu – São.
Moça -Alguém da sua família vive no exterior?
Eu – Apenas um primo na Irlanda.
Moça (sorrindo e voz meiga) – Gustavo, você está mentindo. Eu sei que os seus avós são libaneses (e começou a ler algo que escrevi na internet em inglês).
Eu – Você não perguntou dos meus avós. Você apenas perguntou dos meus pais e se alguém da minha família vive no exterior. Meus avós já morreram.
Moça – Você devia ter me dito.
Eu – Concordo, mas eles foram ao Brasil ainda crianças e isso não influencia em nada com o fato de ser jornalista.
Moça (que decidiu mudar de assunto) – O que você acha de Israel?

Respondi por uns dez minutos. Ela disse que eu estava mais bem informado do que os amigos dela. Quis saber mais dos conflitos internos do Líbano. Passou a ser uma conversa informal, na qual discutimos também sobre as propostas de paz saudita, a eleição israelense, a guerra de 2006 e, claro, a ofensiva em Gaza. Fiquei surpreso também com o conhecimento dela sobre o Líbano. No fim, já cansado, eu disse:

Eu – Se você quiser me barrar, tudo bem. Vou para o Brasil.
Moça – Fica tranquilo Gustavo. Apesar da sua mentirinha, você causou uma boa impressão em mim.
Eu – Então, por favor, não carimbe o meu passaporte (caso contrário, não posso entrar em muitos países árabes).

Volto para a sala, onde ainda estão os outros passageiros e mais alguns recém chegados. Espero mais dez minutos. Uma guarda traz o meu passaporte e diz que posso entrar em Israel. Abro o passaporte e vejo que carimbaram o visto de Israel. Pelo menos com este passaporte, estou proibido de ir à Síria e ao Líbano. Mas deixo para pensar nisso mais tarde.

Obs. Antes que me esqueça, a Embaixada do Iraque em Beirute não me deu visto de jornalista para visitar o norte do país (Curdistão). Ninguém na Embaixada iraquiana falava inglês e o serviço era extremamente confuso. Leve-se em conta que eu tinha o visto de jornalista da Síria e credencial para trabalhar no Líbano.

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