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Em vitória de Assad, oposição na Síria começa a se auto-destruir em lutas entre rebeldes

gustavochacra

15 de julho de 2013 | 12h57

Existem hoje duas guerras civis na Síria. A primeira é a genérica, entre o regime e a oposição. Nesta, claramente, as forças de Bashar al Assad têm sido vitoriosas, embora estejam distantes de restabelecer o status quo anterior. Mas parece ser suficiente para garantir a permanência do líder sírio no poder em Damasco e o domínio dos principais centros urbanos do país, menos partes de Aleppo.

A segunda guerra civil  é entre os próprios grupos da oposição e tem se agravado nas últimas semanas nos territórios controlados pelos rebeldes. Sabemos que existem mais de mil facções armadas dos opositores. Para simplificar, as dividirei em três subgrupos.

O primeiro é o dos curdos. Eles não almejam derrubar Assad. Querem apenas autonomia na áreas controladas por eles. De uma certa forma, atingiram este objetivo e até mantêm uma coexistência com o regime, que não os incomoda. Inclusive, joga o problema para a Turquia, onde o governo de Recep Tayyp Erdogan apoia os opositores sírios, mas reprime os curdos.

O segundo subgrupo seria o Exército Livre da Síria. Existente quase que exclusivamente no nome, congrega facções defensoras da queda de Assad, mas não do estabelecimento de um Estado islâmico no país, mesmo sendo formada majoritariamente por sunitas religiosos – os sunitas seculares costumam ficar ao lado do regime e dos cristãos, alauítas e drusos. Seu comandante é o general Salim Idris. Homem respeitado, porém com pouca autoridade sobre esta própria organização que lembra uma colcha de retalhos. O principal suporte a eles vem da Arábia Saudita e Jordânia.

O terceiro subgrupo é composto por uma série de organizações extremistas, sendo a mais conhecida delas a Frente Nusrah, considerada terrorista pelos Estados Unidos e ligada à Al Qaeda. Eles não querem apenas a queda do regime secular de Assad. Defendem um Estado radical islâmico similar ao Afeganistão do Taleban em uma nação mediterrânea de tradição liberal como a Síria. O principal apoio vem do Qatar, da Líbia e de jihadistas ao redor do mundo.

A guerra civil entre a oposição se dá entre estes dois últimos subgrupos – Exército Livre da Síria e as organizações extremistas como a Frente Nusrah. Hoje, os radicais são bem mais poderosos.

Os Estados Unidos, ao armarem o Exército Livre da Síria, não visam a queda de Assad neste momento. Querem, na verdade, mudar a balança de poder entre os rebeldes. Isto é, o ideal seria deixar as forças de Idris mais fortes do que as da Frente Nusrah. A partir deste momento, a próxima etapa seria um diálogo como o regime para uma transição em direção à democracia, por mais utópico que isso possa parecer.

O cenário otimista seria até as eleições previstas em 2014. Neste caso, Assad concordaria em deixar o poder não concorrendo a uma reeleição, encerrando o mandato e podendo permanecer na Síria. Membros do regime poderiam disputar eleição contra o general Idris ou outros opositores moderados, por exemplo.

Para os americanos, o pior não é Assad, mas a Frente Nusrah.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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