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Em Tel Aviv, maior cidade judaica do mundo, kipá é artigo raro

gustavochacra

05 de fevereiro de 2009 | 17h36

Andei três quarteirões na Dizengoff, uma das mais badaladas ruas comerciais de Tel Aviv. Não vi nenhuma pessoa de kipá. Pode até ter sido coincidência. Mas olhei em todos os cafés, lojas e barracas de suco. Ninguém. Isso na maior cidade judaica do mundo. Lembrei-me de um dos meus primeiros dias aqui em Jerusalém. Fui almoçar em um restaurante na Ben Yehuda, na região central da cidade. Todos os homens estavam de kipá.

Quando me perguntarem para descrever Israel, terei dificuldade para explicar estes contrastes. Posso dizer que é Hebron, com seus colonos no meio dos palestinos. Ou então os kite-surfistas de Tel Aviv, que aproveitavam os ventos do último shabat, enquanto moradores do bairro ortodoxo de Meah Sharin, em Jerusalém, rezavam e descansavam.

Israel não é um país monolítico, mas uma terra de contrastes. Vejam as eleições. Há partidos ultra-ortodoxos, como Shas. Esquerdistas que fizeram guerras, como os Trabalhistas. Um ex-premiê impopular que é o favorito para voltar ao poder. Um partido de imigrantes russos que tem como meta tirar a cidadania de árabes israelenses “que não demonstrem lealdade” ao país onde vivem. Pessoas que se dizem palestinas mas que jamais aceitariam se desfazer de seu passaporte israelense. Uma belicosa direita que assinou o acordo de paz com o Egito e se retirou de Hebron. E um Nobel da Paz que liderou a administração que mais construiu os criminosos assentamentos na Cisjordânia.

O que está claro é que Israel não é o paraíso, como dizem alguns. Muito menos o demônio, como pregam outros. O premiê turco, que condena com razão Israel pelo bombardeio à Gaza, se recusa a aceitar que seu país matou centenas de milhares de armênios em um dos maiores genocídios do século 20. No Líbano, poucos criticaram o atual presidente Michel Suleiman (na época comandante das Forças Armadas) após ele comandar uma operação militar que destruiu o campo de refugiados de Naher el Bared, matando centenas de pessoas, incluindo muitos civis. Ao contrário, ele virou unanimidade. Já a Síria usa o argumento da ocupação do Golan para manter um estado de exceção em seu território, reprimindo opositores.

Esses países não querem ver o lado positivo de Israel. Assim como os israelenses se recusam a enxergar qualidades nos seus inimigos. A Síria é estável e não religiosa. Como dizer que o ultra secular Bashar al Assad é um fanático? O Líbano, como todos os seus problemas, é um país culturalmente avançado e cosmopolita, e não um lugar onde todos os habitantes são do Hezbollah e defendem a destruição de Israel. Inclusive, é uma incipiente democracia, com relativa liberdade de imprensa e eleições livres. E a maioria dos palestinos quer apenas ter um país que chame Palestina, assim como os judeus têm Israel. Nada mais do que isso. Um lugar onde, um dia, alguém possa descrever Ramallah “como a Tel Aviv palestina”.


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