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Entenda a captura do soldado israelense e “ignore” a captura dos soldados libaneses

gustavochacra

02 de agosto de 2014 | 10h38

Um soldado de Israel foi capturado dentro da Faixa de Gaza por militantes palestinos. Os EUA e o Exército israelense afirmam ter sido o Hamas. O grupo palestino diz ter perdido o contato com a célula responsável pela operação e não descarta a possibilidade de o militar estar morto.

A ONU, os EUA e Israel afirmam que a captura ocorreu uma hora depois do cessar-fogo de ontem, portanto violando o cessar-fogo. Segundo americanos e israelenses, os termos do cessar-fogo de 72 horas permitiam que Israel mantivesse as operações de túneis do Hamas. O grupo palestino nega e diz que estas operações deveriam ter sido interrompidas. Além disso, argumenta que foi uma hora antes.

Independentemente do que ocorreu, os cenários envolvendo as consequências deste episódio dependem do estado do soldado – se ele está capturado ou se está morto

1) Se estiver capturado

Israel não medirá esforços para tentar resgatá-lo pela via militar, aumentando ainda mais as operações por terra. O interessante e até irônico é que não apenas mais palestinos morrerão no processo, como certamente soldados israelenses também. Isto é, para salvar um soldado, outros soldados morrerão. E não se sabe se haverá sucesso. O Hamas esperará acalmar a situação para no longo prazo tentar trocar por alguns dos milhares de prisioneiros palestinos em Israel. A comunidade internacional tentará a libertação incondicional dele o quanto antes

2) Se ele morreu

Vale lembrar que os 3 jovens israelenses sequestrados na Cisjordânia (uso a palavra sequestro aqui porque eram civis) morreram horas depois do sequestro. Mas por semanas Israel lançou uma mega operação em Hebron, prendendo centenas de palestinos e matando ao menos três. Mas, caso o corpo apareça, Israel no médio prazo deve aceitar um cessar-fogo (já aceitou outras vezes, mas viu os incentivos diminuírem com a captura) e o Hamas provavelmente também (aceitou desta vez e provavelmente houve falhas na cadeia de comando nos contatos com a célula).

Agora, provavelmente você irá parar de ler, porque falarei dos dois soldados libaneses capturados pela Frente Nusrah, o braço da Al Qaeda na Síria que luta contra Bashar al Assad, hoje no Líbano. Mas, mesmo assim, vou falar

O Líbano havia capturado um dos principais líderes da Frente Nusrah dentro do território libanês. Horas depois, membros desta organização conseguiram penetrar dentro do Líbano e capturaram os dois soldados. 

Vale lembrar que o Exército do Líbano, em toda a sua história, nunca invadiu ninguém. Vale lembrar que o Líbano teve seu território invadido pela Síria e por Israel diversas vezes ao longo da sua história (e inclusive atualmente sofre com violações constantes de Israel em seu espaço aéreo). Vale lembrar que israelenses, sírios e palestinos (a OLP) ocuparam ilegalmente o Líbano por anos, sendo responsáveis por milhares de mortes. Vale lembrar que o Líbano é o país onde os cristãos vivem melhor no Oriente Médio, tendo os cargos de presidente, comandante das Forças Armadas, metade do Parlamento e metade do gabinete ministerial. Vale lembrar que a maior comunidade libanesa do mundo, incluindo o Líbano, é a do Brasil. Vale lembrar que o Líbano recebe 1 milhão de refugiados sírios. Vale lembrar que o Líbano recebe 500 mil refugiados palestinos. Vale lembrar que o Líbano tem 4 milhões de habitantes. Vale lembrar que o território do Líbano é menor do que o Sergipe. Vale lembrar que o Líbano, junto com a Síria, foi o primeiro país a se manifestar a favor dos cristãos iraquianos e, depois da Síria, o que mais deu abrigo aos cristãos iraquianos desde a invasão dos EUA ao Iraque

E, claro, aguardamos neste momento

1) Uma posição do governo de Dilma sobre a captura dos soldados libaneses

 2) Uma condenação por parte do presidente Barack Obama sobre a captura dos soldados libaneses

 3) Um repúdio nas redes sociais brasileiras da ação deste grupo terrorista chamado Frente Nusrah

4) Fotos em apoio aos soldados libaneses capturados

5) Aguardamos colunas e blogs na Folha e em outros órgãos de imprensa comentando sobre o assunto

 Obs. Sei que alguns dirão – Mas o Hezbollah não invadiu a Síria? Primeiro, o Hezbollah não é o Líbano. Seu braço político integra uma das maiores coalizões, a 8 de Março, na qual são aliados de cristãos e fazem parte de um governo de união nacional no qual são minoritários e tiveram de aceitar um premiê opositor. Seu braço militar sim atua na Síria, apesar da oposição de grande parte dos libaneses, que querem ver o grupo desarmado. Mas o Hezbollah foi para a Síria lutar ao lado de Assad, que enfrenta grupos terroristas como a Frente Nusrah e o ISIS. Sem o Hezbollah, talvez hoje Damasco fosse governado por uma versão deturpada de um califado ultra religioso na qual minorias cristãs, alauítas, drusa e mesmo sunitas moderados (a Síria quase não tem xiitas) seriam mortos, como ocorre em partes da Síria nas mãos dos rebeldes. Em vez disso, tem uma ditadura laica que também comete crimes contra a humanidade, mas respeita as minorias e os direitos das mulheres

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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