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Entenda a decisão da União Européia de classificar o Hezbollah como terrorista

gustavochacra

22 de julho de 2013 | 11h04

O Hezbollah surgiu no sul do Líbano ao longo dos anos 1980 devido a três principais fatores. Primeiro, a marginalização dos xiitas na sociedade libanesa, tradicionalmente controlada por cristãos e, em menor escala, sunitas e drusos. Em segundo lugar, devido à Revolução Islâmica no Irã, uma nação de maioria xiita que decidiu bancar o Hezbollah.  Por último, a ocupação israelense do Sul do Líbano.

O braço militar da organização se consolidou formalmente no início dos anos 1990 na sua luta contra Israel e seus aliados libaneses. Táticas de guerrilha foram usadas nesta época.  Em 2000, devido a enorme pressão interna, Israel se retirou.  A saída foi vista como uma vitória do Hezbollah. Durante todo este período, o grupo realizou cerca de dez ataques suicidas, todos dentro do Líbano e contra forças militares de ocupação estrangeira. Desde a retirada, não houve mais ações como estas. E o Hezbollah jamais cometeu um atentado suicida dentro de Israel – muitos confundem o grupo com o palestino Hamas (sunita), responsável por dezenas de atos suicidas.

A organização libanesa voltou a enfrentar Israel na guerra de 2006. Depois de um mês, houve uma trégua que dura até hoje. Ao não perder, o Hezbollah mais uma vez foi visto  como vencedor nas ruas árabes. Não apenas xiitas, mas também sunitas e cristãos passaram a admirar o grupo. Dentro do Líbano, após o atentado que matou Rafik Hariri em 2005, a relação com os sunitas nunca mais foi a mesma.

O cenário no restante das ruas árabes começou a mudar com o início do conflito na Síria e, acima de tudo, com o envolvimento direto do grupo na guerra nos últimos meses.  O grupo, celebrado por ser anti-Israel, passou a ser criticado por ser anti-sunita.

Fora do Oriente Médio, o Hezbollah foi acusado pelo atentado contra a AMIA nos aos 1990 em Buenos Aires e, mais  recentemente, na  Bulgária – neste último,  o novo governo búlgaro voltou atrás na acusação, embora isso venha sendo ignorado por parte da imprensa e dos governos europeus. O grupo nega ambos. Há ainda um julgamento de um membro do grupo no Chipre.  Os atentados nos anos 1980 não devem ser considerados porque o grupo não existia nos moldes atuais.

Neste contexto, a União Europeia decidiu classificar o Hezbollah como terrorista. Mas por que agora? Por dois motivos. Primeiro, devido ao envolvimento do grupo na Síria. Em segundo lugar, para satisfazer os israelenses na frente libanesa enquanto pressionam Israel na frente palestina, como vimos na semana passada.

O braço político do Hezbollah não será considerado terrorista pelos europeus porque a União Europeia avalia ser importante para a estabilidade libanesa.  O Hezbollah conta com o apoio da maioria dos xiitas e mantém uma aliança com os cristãos seguidores de Michel Aoun, que são majoritários na política do Líbano.  Muitos cristãos também acham importante o papel do Hezbollah na Guerra da Síria por defender os cristãos sírios, aliados do regime de Assad.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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