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Entenda a negociação dos EUA com o Taleban

gustavochacra

19 de junho de 2013 | 13h12

Meu comentário sobre EUA-Taleban no Jornal das Dez da Globo News

Os EUA estão corretos em negociar com o Taleban. Não sei se obterão sucesso, mas é uma iniciativa importante para tentar deixar o Afeganistão o mais estável possível no período posterior à retirada das tropas da OTAN no final de 2014.

Primeiro, vamos recapitular. Nos anos 1980, a União Soviética invadiu o Afeganistão para defender seus aliados. No contexto da Guerra Fria, os EUA armaram os mujahedeen, que eram guerrilheiros extremistas islâmicos, tanto do país como de outras nações na região, que acabaram sendo os vencedores e se dividiram em dois – os afegãos fundaram o Taleban, que chegou ao poder em Cabul. Os de outros países, como Osama bin Laden, criaram a Al Qaeda para realizar atos terroristas ao redor do mundo.

Ao longo dos anos 1990, o Taleban instalou um regime ultra radical no Afeganistão que era completamente ignorado no resto do mundo. Apenas o Irã, isso mesmo, demonstrava preocupação com esta organização e os dois países quase entraram em guerra.

A Al Qaeda, por sua vez, se voltou contra os EUA no período da Guerra do Golfo, em 1991. Bin Laden e seus associados se ofereceram para expulsar as forças de Saddam Hussein do Kuwait. Mas os países do golfo optaram pela ajuda da coalizão liderada pelos americanos, que ergueram bases na Arábia Saudita, irritando a Al Qaeda.

Muitos membros da organização, no final da década de 1990, buscaram refúgio no Afeganistão do Taleban. A partir dali, os membros da rede terrorista de Bin laden teriam organizado o 11 de Setembro e outros atentados.

Bush disse que, caso o Taleban concordasse em entregar os líderes da Al Qaeda, não haveria invasão do país. Os afegãos não aceitaram e acabaram sendo derrubados no poder no fim de 2001 pelas tropas dos EUA com ajuda da OTAN.

Neste período, morreram dezenas de milhares de pessoas em um conflito que já dura doze anos. Agora, depois da multiplicação do número de militares no início do mandato de Obama, o Afeganistão se tornou mais estável do que anos atrás, embora ainda em guerra. A Al Qaeda perdeu completamente a força no país, sendo hoje mais poderosa na Síria, onde luta contra Bashar al Assad, no Iraque, onde luta contra o governo, no Yemen, na chamada Al Qaeda da Península Arábica, e no norte da África, na Al Qaeda do Maghreb.

O objetivo americano, portanto, foi alcançado. O Taleban, porém, é um ator político dentro do Afeganistão. Sem a Al Qaeda, abandonando as armas e concordando em respeitar a Constituição, como demandam os EUA e o governo em Cabul, não haveria motivos para os americanos se preocuparem. É importante notar que o Taleban do Paquistão, responsável por uma série de ataques terroristas, não é a mesma organização que o Taleban afegão.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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