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Entenda a situação dos cristãos do Egito

gustavochacra

16 de agosto de 2013 | 17h47

Os cristãos do Egito, majoritariamente coptas, desde a Revolução Arabista de Nasser, nos anos 1950, nunca tiveram a mesma importância dos cristãos do Líbano, do Iraque e da Síria para seus países. Diferentemente de seus pares em Damasco, Bagdá e Beirute, onde integram ou integravam a elite, os egípcios sempre enfrentaram dificuldades no Cairo e Alexandria.

Durante o regime de Hosni Mubarak, muitos deles viviam nos lixões do Cairo, onde criavam porcos. Os cristãos também eram perseguidos e raros, como o ex-secretário-geral da ONU Boutros Boutros Ghali, alcançavam posições de importância.

Apenas como comparação, no Líbano, os cristãos possuem o cargo de presidente, chefe das Forças Armadas, metade do gabinete ministerial e metade do Parlamento. Verdade, representam cerca de um terço da população, enquanto no Egito são 10%. Mas, na Síria, onde a proporção é similar à egípcia, os cristãos sempre tiveram cargos importantes, incluindo, até recentemente o de ministro da Defesa.

Mesmo antes da Primavera Árabe, os cristãos, ao redor do mundo árabe, buscaram se aliar a setores mais fortes em suas sociedades para tentar se proteger. Algo normal para minorias religiosas. Ditadores seculares sempre foram vistos como protetores em Bagdá e Damasco, por exemplo. No Iraque, até 2003, os cristãos eram abertamente a favor do regime de Saddam Hussein – o número dois do regime era o cristão caldeu Tariq Aziz. Na Síria, sempre estiveram ao lado da família Assad.

No Líbano, até a Guerra Civil de 1975 a 90, os cristãos eram os mais poderosos. Depois, em uma nação politicamente nos dias de hoje dividida entre sunitas e xiitas, a maior parte dos cristãos, seguidores de Michel Aoun, buscou em uma aliança com os xiitas do Hezbollah a sua proteção. Outros, como os seguidores de Samir Gaegea, acharam melhor se aliar aos sunitas de Saad Hariri.

No Iraque, a aposta dos cristãos, em se aliar a Saddam, foi um grande erro. A invasão americana fez centenas de milhares de cristãos iraquianos buscar refúgio na Síria e nos braços de Assad que, como o ditador em Bagdá, sempre protegeu os cristãos.

A Guerra Civil da Síria fez os cristãos sírios, incluindo autoridades religiosas, a apoiarem em massa as forças de Assad, um líder secular, embora alauíta, uma vertente moderada do islamismo, e com o apoio da classe média sunita não religiosa das grandes cidades. O medo dos cristãos sírios eram acabar como os iraquianos. Neste caso, a aposta deles tem sido positiva, por um lado, pois Assad está vencendo a guerra. De outro, porém, são alvos dos rebeldes radicais sunitas da oposição que, com o apoio do Golfo e de Nações ocidentais, alvejam vilas cristãs que são alvos de massacres – para os cristãos sírios, quem os protege são a Rússia e o Irã, além de Assad, e não os EUA e a França, a quem consideram aliados do extremismo islâmico.

Os cristãos egípcios, por sua vez, nunca tiveram um protetor. Para eles, não há um Assad ou um Saddam e tampouco uma Rússia ou um Irã para defende-los. E tampouco possuem o poder político e econômico dos cristãos libaneses, que também são elite ao redor do mundo, incluindo em São Paulo.

Já tratados cidadãos de segunda classe nos anos de Mubarak, os cristãos apostaram inicialmente na redemocratização do Egito. Mas, com o presidente Mohammad Morsy, da Irmandade Muçulmana, fazendo propostas que não respeitavam totalmente as demais religiões do Egito, especialmente a cristã, eles se juntaram aos milhões de manifestantes pedindo a queda do então líder egípcios. E decidiram apostar nos militares.

Esta opção, porém, parece não estar sendo eficiente. Os cristãos, que não são responsáveis diretos pelos massacres de membros da Irmandade Muçulmana nesta semana, vem se transformando em bode expiatório por parte da Irmandade. Dezenas de igrejas foram queimadas nos últimos dias. O problema é que, diferentemente de Saddam e de Assad, com todos os seus defeitos de ditadores sanguinários, o general Sisi, assim como Mubarak anteriormente, não está preocupado com os cristãos. De uma certa forma, até os usa como tática de PR para dizer que os membros da Irmandade Muçulmana são radicais no Ocidente.

Uma pena, mas o cristianismo egípcio corre enorme risco. Cada vez mais, o único bastião seguro para os cristãos no mundo árabe é o Líbano e a Cisjordânia, além da Síria, se Assad conseguir vencer a guerra.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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