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Entenda como está a Primavera Árabe em um post de blog

gustavochacra

10 de fevereiro de 2013 | 14h54

Nunca é muito bom generalizar países tão distintos para tentar explicar uma região. Por este motivo, nós brasileiros nos irritamos quando somos colocados no mesmo caldeirão “América Latina” ao lado de nações que não temos nada em comum, nem a língua. O mesmo se aplica ao mundo árabe, que começa no Marrocos e termina no Iraque.

Ainda assim, vou tentar resumir esta região de forma didática para explicar como anda a Primavera Árabe. Primeiro, precisamos entender como era o status quo anterior à queda de Ben Ali na Tunísia, que serviu de estopim para os movimentos contra as ditaduras.

Na época, o mundo árabe podia ser dividido em três grupos. Primeiro, as monarquias absolutistas do Golfo Pérsico, ultra-religiosas e ricas em petróleo. Neste grupo, estão o Qatar, Bahrain, Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Omã. O segundo grupo eram o das repúblicas ou monarquias de viés mais laico, que se opunham a movimentos islâmicos, como a Jordânia, Síria, Egito, Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos e Iêmen. Por último, havia as democracias sectárias (Líbano e Iraque). A Palestina é um caso parte.

Dos grupos acima, apenas o segundo foi alvo da Primavera, além de Bahrain. Os demais do primeiro grupo e os do terceiro (Líbano e Iraque) não enfrentaram problemas ou seguiram com os que já existiam.  Destes países alvos da Primavera Árabe (segundo grupo), também temos de dividir em dois subgrupos. Obviamente, o primeiro são os que viram suas ditaduras cair – Egito, Tunísia, Líbia e Iêmen. Os outros permanecem sendo governados por regimes não democráticos (Síria, Jordânia, Argélia e Marrocos).

Até agora, dos que derrubaram as suas ditaduras, nenhum conseguiu se tornar uma democracia. Em dois deles, Egito e Tunísia, o problema talvez seja a chegada de partidos islâmicos como a Irmandade Muçulmana e o Ennahda ao poder, com restrição a liberdades sociais existentes na época das ditaduras, como no caso das mulheres e das minorias religiosas. A Líbia e o Iêmen enfrentam problemas ligados ao tribalismo e a ausência de uma força de segurança capaz de controlar todo o país, onde há presença de organizações terroristas ligadas à Al Qaeda.

Na Síria, a guerra civil que devastou o país e não deve terminar tão cedo. É caso terminal (veja post anterior). Em Bahrain, a monarquia sunita dos Al Khalifa, com a conivência da comunidade internacional, continua reprimindo com violência a oposição e a maioria xiita. A Jordânia segue à beira do colapso, com o rei temendo ser deposto e vendo como se equilibra. A Argélia se mantém estável porque sua Primavera Árabe ocorreu nos anos 1990, durante a Guerra Civil dos militares contra o GIA (Grupo Islâmico Armado), e poucos têm paciência para mais conflito em uma nação rica em petróleo. O Marrocos, de todos os países árabes, é o único que apresentou reformas sem a necessidade de queda do regime.

 Os países do Golfo Pérsico seguem com seus regimes absolutistas, embora em graus distintos. O Kuwait tem mais liberdades eleitorais, enquanto os Emirados possuem mais liberdades sociais, Omã desfruta de liberdades culturais e o Qatar de liberdade de imprensa desde que não se fale mal da monarquia local. No caso saudita, com a existência de um apartheid contra as mulheres e minorias religiosas.

Diante deste cenário, fica simples entender porque o resto do mundo aos poucos acha que a Primavera Árabe se tornou o Inverno Árabe. 

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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