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Entenda o atentado contra vila cristã no Líbano

gustavochacra

27 Junho 2016 | 19h23

De tempos em tempos aparecem umas pessoas reclamando que não falo da situação dos cristãos no Oriente Médio, embora eu escrito centenas de textos sobre o tema, entrevistado uma série de autoridades cristãs e feito reportagens in loco na Síria e no Líbano. O problema é que as pessoas não leem ou apenas querem propagar mentiras.

Hoje, por exemplo, um ataque terrorista cometido por uma série ações suicidas matou 5 pessoas na vila de Al Qaa (Líbano). O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, e a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria) são os principais suspeitos de atacar esta vila no norte do Vale do Beqaa. Certamente estes chatos que reclamam que não escrevo não possuem ideia de que este ataque ocorreu.

Al Qaa é majoritariamente cristã, da corrente grego-católica, mais conhecida como melquita. Fica perto da fronteira do Líbano com a Síria em uma área onde há combates entre forças do regime de Bashar al Assad e grupos rebeldes como a Frente Nusrah e o ISIS.

Esta região libanesa tem uma concentração grande de áreas xiitas controlados pelo Hezbollah e algumas vilas cristãs – e também algumas plantações de maconha e papoula. Em Al Qaa, os habitantes há algum tempo formaram pequenas milícias cristãs treinadas pelo Hezbollah para se defenderem dos ataques da Frente Nusrah e do ISIS.

Uma das explosões ocorreu diante da Igreja de São Elias. Estes ataques contra cristãos são mais raros no Líbano do que na Síria. Os cristãos libaneses são poderosos dentro do país, tendo metade do Parlamento e metade das Forças Armadas. As alianças políticas com o Hezbollah, por algumas facções, e com os sunitas, em outras, dão uma certa segurança.

Mas os cristãos de Beirute, do Monte Líbano e mesmo de Zahle, no Vale do Beqaa, estão bem distantes, para padrões libaneses, dos de Al Qaa. Os de Zahle, claro, tem uma proximidade sectária maior por também serem em sua maioria cristãos melquitas, enquanto a maior parte dos cristãos libaneses é maronita, seguida pelos grego-ortodoxos.

Os atentados desta segunda, portanto, deixam as populações cristãs mais isoladas do Líbano um pouco mais temerosas. Em muitos casos, dependem da ajuda do Hezbollah e das forças de Assad para se preotegerem. Seria algo similar, embora em uma escala bem menor, ao que ocorre com os cristãos da Síria. Os que vivem em Damasco estão seguros e protegidos. Mas os que vivem em regiões mais isoladas, nas mãos dos rebeldes, são perseguidos.

Para terminar, este atentado entra no contexto da Guerra da Síria, não do Líbano.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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