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Entenda o atentado de hoje Beirute

gustavochacra

27 de dezembro de 2013 | 12h16

O atentado de hoje no Líbano faz parte do cenário de instabilidade existente desde 2005, com um raro hiato em 2009 e 2010, e acentuado desde o início da Guerra da Síria em 2011. Abaixo, explico o contexto

Como se divide o Líbano politicamente hoje?

Coalizão 8 de Março – Composta pelos xiitas do Hezbollah, seus parceiros da também xiita, mas laica, Amal, e diversos grupos cristãos, capitaneados por Michel Aoun, além de algumas facções sunitas minoritárias. Seus maiores aliados são o Irã e a Síria e apoiam abertamente o regime de Assad na guerra civil do país vizinho

Coalizão 14 de Março – Comandada pelos sunitas do grupo Future, de Saad Hariri, hoje vivendo no exterior, com seus parceiros cristãos seguidores de Samir Gaegea. Não há xiitas relevantes nesta coalizão. Seu principal aliado é a Arábia Saudita e apoia abertamente rebeldes da oposição, muitos deles radicais, na Guerra da Síria

Neutros – O presidente Michel Suleiman, que é cristão, como determina a lei, e os drusos de Walid Jumblat

Quem está no poder?

Há meses está no poder um governo interino de Nagib Mikati, um sunita moderado e mais próximo da 8 de Março. O premiê designado Tammam Salam, independente, não consegue formar um governo devido a divergências entre os dois lados. O presidente Michel Suleiman tem atribuições mais fortes na área da Defesa do que no dia a dia do poder executivo

Por que os dois lados se dividem?

As divergências maiores se dão no papel do Hezbollah e da Guerra da Síria.

8 de Março – defende que o grupo xiita mantenha armas com o argumento de estas serem para proteger o país de Israel. Além disso, apoia Assad por vê-lo como defensor dos cristãos sírios e de outras minorias religiosas, enquanto os rebeldes seriam radicais sunitas ligados à Al Qaeda, uma tradicional inimiga do Hezbollah

14 de Março – embora também anti-Israel, avalia que o Hezbollah quer as armas mesmo para lutar a favor de Assad na Guerra Civil da Síria e para dominar o Líbano.  Quem deve defender o Líbano de Israel é o Exército, não o grupo xiita. Apoia os rebeldes dizendo que Assad é um líder sanguinário que fez muito mal para o Líbano

Quem são as vítimas do terrorismo?

Os dois lados. O Hezbollah e os xiitas foram alvo de uma série de atentados nos últimos meses com dezenas de mortos. Até mesmo a embaixada do Irã em Beirute foi atingida. Os sunitas da 14 de Março, por sua vez, também foram alvos de ataques terroristas, incluindo hoje

Quem são os responsáveis?

Depende do ataque. Nos que atingiram o Hezbollah, a acusação pesa sobre a Al Qaeda e grupos salafistas. O grupo xiitas suspeita de que membros da 14 de Março, de Hariri, patrocinem grupos ligados à Al Qaeda e suas facções entre os rebeldes sírios. No ataque de hoje, a suspeita recai sobre o Hezbollah e o regime de Assad. Mas não há provas contra ninguém

Quem é a vítima do ataque terrorista de hoje?

Mohammad Chatah tinha 62 anos e viveu por anos nos Estados Unidos, onde trabalhou no FMI e foi embaixador em Washington durante o governo de Rafik Hariri no fim dos anos 1990. Em 2005, retornou ao Líbano na época em que Hariri (o pai) foi assassinado. Foi ministro durante a administração de Fuad Siniora, da 14 de Março. Era visto como moderado entre os sunitas e servia como canal de diálogo com os adversários da 8 de Março, que o respeitavam, embora ele fosse um crítico voraz do Hezbollah e do regime sírio – a organização xiita e Assad condenaram o atentado

Como foi o atentado de hoje?

Um carro-bomba explodiu quando o veículo no qual Chatah viajava cruzava o centro de Beirute. Ele seguia para uma reunião da 14 de Março, que teria a presença de embaixadores dos EUA e a da França. Dezenas de pessoas ficaram feridas

Há algo especial no momento que possa ter motivado o ataque?

Sim, três fatores. Primeiro, começará em breve o julgamento do Tribunal Internacional para o Líbano de membros do Hezbollah pelo atentado que matou Rafik Hariri em 2005. O grupo nega envolvimento. Em segunda lugar, em janeiro haverá o diálogo em Genebra sobre a Guerra da Síria e existem grupos interessados em sabotar a iniciativa. Por último, pode ter sido revide pelos recentes ataques contra o Hezbollah, incluindo um de seus mais importantes comandantes militares

O que deve ocorrer no futuro próximo?

Novos atentados terroristas. Os cristãos tendem a ser alvo em breve. Esta instabilidade prosseguirá enquanto não houver solução para a crise síria. Mas não há risco, ainda, de guerra civil generalizada

Explique melhor as religiões e o poder no Líbano?

Não há maioria religiosa no Líbano. Existem três pluralidades mais relevantes – xiitas, sunitas e cristãos, sendo que estes são majoritariamente maronitas. Há minorias cristãs grego-ortodoxa,armênia, melquita e outras, além de muçulmanos alauítas e drusos. O presidente, o chefe das Forças Armadas e o Ministro da Defesa precisam, por lei, ser cristãos. O premiê, muçulmano sunita. E o presidente do Parlamento, muçulmano xiita. Metade do Parlamento tem de ser cristão e metade muçulmana  e drusa. Na parte muçulmana, há subdivisões entre sunitas e xiitas. O gabinete ministerial segue a mesma regra

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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