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Entenda o colapso das negociações Israel-Palestina

gustavochacra

02 de abril de 2014 | 11h25

O processo de paz entre Israel e Palestina, conforme esperado, corre enorme risco de entrar em colapso. Para entender, temos de diferenciar o “processo”, que são as negociações, do “acordo”, que seria o resultado final.

 Durante as negociações, os dois lados precisam fazer concessões não necessariamente relacionadas ao resultado final

Quais seriam estas concessões?

Israelenses – precisavam libertar dezenas de prisioneiros palestinos em diferentes etapas.

 Palestinos – eles se comprometeram a não buscar a adesão a diferentes entidades internacionais

Por que fracassaram?

Estas negociações deveriam prosseguir até 29 de abril, segundo o combinado com os EUA. Na prática, estavam emperradas desde novembro. Por este motivo, Israel argumenta que decidiu suspender a libertação dos prisioneiros palestinos. Em resposta, a Palestina anunciou que irá aderir a 15 instituições

Por que a adesão da Palestina a estas agências irrita EUA e Israel?

A Palestina foi reconhecida no fim de 2012 como Estado não membro das Nações Unidas. Foram 138 votos a favor (incluindo o Brasil), 41 abstenções e 8 contra (EUA, Israel, Canadá, República Tcheca, Ilhas Marshall, Micronésia, Nauru, Panamá e Palau), além de 5 abstenções.

Ao ser reconhecida, mesmo sem ser membro, a Palestina passou a ter o direito de integrar agências da ONU. Da Unesco, por exemplo, já é membro. Agora, pretende a ser de outras 15. Israel e EUA temem, acima de tudo, o ingresso dos palestinos no Tribunal Penal Internacional em Haia para, posteriormente, processar Israel ou líderes israelenses pela ocupação da Cisjordânia – território reconhecido como palestino pelas Nações Unidas.

Qual seria a reação dos EUA se a Palestina levar adiante o ingresso nas agências da ONU?

O Congresso dos EUA suspenderia imediatamente a ajuda financeira para a Autoridade Palestina. As agências da ONU também poderiam ser alvo de corte de fundos dos americanos, como aconteceu com a Unesco. Para completar, assim como ocorreu com Yasser Arafat em Camp David 14 anos atrás, os palestinos seriam responsabilizados pelo colapso das negociações

Qual o objetivo de Abbas ao buscar o ingresso?

São dois os principais motivos. Primeiro, o apoio doméstico à iniciativa. Em segundo lugar, esta seria uma das poucas armas de barganha de Abbas neste momento.

E por que Israel não liberta os prisioneiros?

Porque os israelenses avaliam que as negociações não têm avançado nada e o custo doméstico de libertar os prisioneiros (muitos deles terroristas e envolvidos na morte de israelenses) não compensaria. Além disso, também podem usar a libertação como moeda de troca para os EUA soltarem Jonathan Pollard, um americanos que divulgou segredos de Washington para Israel e foi condenado à prisão perpétua.

As negociações entraram em colapso?

Ainda não, mas os dois lados claramente já começam a agir para culpar o adversário pelo fracasso.

Se entrar em colapso, o que pode ocorrer?

Pode haver uma nova onda de violência. Outra possibilidade, mais provável, é a Palestina seguir pela via unilateral nas agências da ONU e, com o apoio de simpatizantes ao redor do mundo, intensificar a campanha de boicote a Israel, isolando os israelenses, como ocorreu com a África do Sul no passado. Por último, os palestinos podem também desmantelar a Autoridade Palestina e passar a pedir a cidadania israelense.

E o acordo final?

Os dois principais entraves seriam a Palestina reconhecer Israel como Estado judaico (a Palestina já reconhece Israel como Estado israelense) e Israel reconhecer como muitos palestinos foram expulsos na Guerra de 1948, além do status final de Jerusalém

Como seria o acordo final?

Dois Estados. A Palestina teria como base as fronteiras de 1967, englobando Cisjordânia e Faixa de Gaza. Os principais blocos de assentamentos permaneceriam com Israel. Os demais ficariam dentro do futuro Estado palestino. O vale do Rio Jordão e outras áreas da Cisjordânia teriam tropas israelenses por cinco anos, havendo uma transição posteriormente para a OTAN (palestinos já concordaram). Jerusalém seria uma cidade unificada, capital de Israel e da Palestina. Os bairros árabes, na parte oriental, estariam sob a soberania palestina. Os judaicos, inclusive na parte oriental, ficariam com Israel. Os refugiados poderiam retornar para o futuro Estado palestino, não para Israel. Os judeus expulsos de países árabes receberiam alguma forma de compensação

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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