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Entenda o contexto do ataque na Argélia

gustavochacra

16 de janeiro de 2013 | 18h30

O ataque de hoje na Argélia, com o sequestro de estrangeiros, tem sua origem nos anos 1990 em uma guerra civil pouco lembrada atualmente na Primavera Árabe.

No início daquela dácada, a Frente Islâmica de Salvação  (FIS)venceu eleições que não foram aceitas pelos militares. Nos anos seguintes, eclodiu uma violenta guerra civil envolvendo o Exército contra o Grupo Islâmico Armado (GIA), ligado à FIS. Na época, eles também realizaram uma série de atentados em Paris.

Depois de dezenas de milhares de mortes, as militares venceram. A estabilidade retornou à Argélia, que se tornou um Estado policialesco, temendo o tempo todo o radicalismo islâmico. A economia, com base no petróleo, avançou. Enquanto em outras nações no Norte da África, como o Egito, Tunísia e Líbia, ditaduras foram derrubadas, em Argel tudo seguiu normalmente na Primavera Árabe.

Houve protestos, mas o regime conseguiu coibir seu alastramento, sem a necessidade de matar milhares de pessoas como na Síria. Houve censura, algumas prisões e suspeitas de tortura. Algo incomparável às atrocidades no território sírio. Além disso, a renda do petróleo foi usada acalmar os ânimos da população, que teme uma nova guerra civil e prefere a estabilidade do regime ao incerto de uma revolução.

O problema é que, em Mali, os grupos radicais islâmicos que tomaram o norte do território é composto em parte por veteranos da guerra civil da Argélia e, mais recentemente, a da Líbia. Com o apoio argelino à ofensiva francesa, que decidiu intervir na crise em Mali, eles aparentemente decidiram reagir. O ataque foi tanto contra o regime em Argel como contra os franceses, ao alvejar estrangeiros na ação terrorista.

A Argélia, neste momento, fará de tudo para evitar o alastramento do conflito. Suas Forças Armadas são extremamente bem preparadas. O regime passará por uma transição no ano que vem,  quando o idoso Abdelaziz Bouteflika se aposentará e eleições presidenciais serão convocadas. O vencedor, certamente, será alguém do regime, que é bem menos personalista do que os derrubados na Líbia (Kadafi), Tunísia (Ben Ali) e Egito (Mubarak).

Já a França e os países europeus precisam se preparar. Os rebeldes de Mali são praticamente a Al Qaeda do Maghreb, uma das mais poderosas franquias da rede terrorista. Certamente eles planejarão outros atentados mesmo no continente europeu para se vingar.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


 

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