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Entenda o envolvimento do Hezbollah na Guerra da Síria

gustavochacra

21 de fevereiro de 2013 | 11h13

Nos últimos dias, o envolvimento do Hezbollah na guerra civil da Síria passou a ganhar destaque. O grupo libanês é acusado de ter atacado rebeldes da oposição sírios em Al Qusayr, na Província de Homs.  Se a organização xiita não “suspender os ataques” até esta quinta (hoje), a colcha de retalhos de guerrilheiros da oposição síria conhecida como Exército Livre da Síria ameaça atacar o Hezbollah dentro do Líbano.

Um leigo, como a maior parte das pessoas que dão opinião sobre Síria e Líbano, pode achar que o Hezbollah entrou em Al Qusayr para atacar pacifistas opositores em suas vilas na Síria e assim sustentar o Bashar al Assad no poder. Mas a história é bem mais complexa, embora a organização libanesa realmente queira a permanência do regime em Damasco.

Al Qusayr, onde membros do Hezbollah realizaram uma operação, fica a 10 km da fronteira com o Líbano e é majoritariamente sunita e cristã. Os dois lados da divisa, porém, possuem algumas vilas majoritariamente xiitas. Nestes vilarejos, famílias possuem membros no Líbano e na Síria. Apenas ficaram em diferentes países porque a França decidiu ao traçar aleatoriamente as fronteiras do território que ficou sob o seu mandato após o colapso do Império Otomano.

Nas últimas semanas, rebeldes da oposição síria em Al Qusayr teriam atacado alguns destes vilarejos xiitas. Membros do Hezbollah no lado libanês que possuem relação de parentesco com xiitas sírios, por conta própria, cruzaram alguns metros da fronteira e foram defendê-los. O alvo acabou sendo também sunitas na cidade de Al Qusayr, que está dividida entre apoiar ou não Assad – os cristãos, alauítas e os xiitas defendem o regime, enquanto os sunitas lutam para derrubá-lo.

Este seria o envolvimento do grupo libanês neste momento na Síria que recebe destaque nas manchetes internacionais. Quem conhece a região sabe o que são estes vilarejos. É como ir de Barra do Una para Juquehy no litoral norte paulista.

Além disso, vale lembrar, os xiitas são uma ultra minoria (3%) dentro da Síria, onde 60% da população é árabe sunita, 10% curda sunita, 12% árabe alauíta (alauíta não é xiita, ao contrário do que escrevem em muitos lugares), 9% cristã (várias denominações) 3% druza. A maioria dos xiitas está concentrada justamente ao redor de Al Qusayr. Obviamente, se sentem ligados de todas as formas ao Hezbollah, no Líbano, onde sunitas, xiitas e cristãos maronitas possuem cerca de 30% da população cada um (o restante é composto por cristãos melquitas, assírios, ortodoxos e armênios, além de drusos e alauítas). Sempre lembrando que tudo é estimativa, pois censos são proibidos no Líbano.

Explicada a questão de Al Qusayr, devemos frisar que o Hezbollah tem interesse claro na permanência de Assad no poder na Síria. Apesar de o grupo ser religioso e o regime ter um viés ultra laico, os dois mantêm boas relações e a organização depende, em parte, do sírios logisticamente para conseguir armamentos vindos do Irã para atacar Israel. Com a guerra civil, esta via já ficou praticamente interrompida. Damasco também dá amparo ao grupo e seus aliados cristãos, além de alguns sunitas, dentro do Líbano para manter a coalizão governista.

Por enquanto, o Hezbollah tem optado por defender alguns interesses do Irã e também xiitas dentro da Síria, além de participar de ações isoladas em coordenação com as Forças Armadas sírias. Um dos temores da organização libanesa é de que um regime sunita radical substitua Assad no futuro. Desta forma, o grupo xiita teria inimigos em suas duas fronteiras (a outra é Israel), além de rivais internos no Líbano.

Já a ameaça do Exército Livre da Síria é relativamente importante. Esta milícia, claro, ainda é um XV de Piracicaba enfrentando o Barcelona no Camp Nou caso queira bater de frente com o Hezbollah no Líbano. Por outro lado, pode usar salafistas radicais dentro do território libanês para alvejar interesses ligados ao grupo xiita. O resultado pode provocar instabilidade em Beirute.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

 

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