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Entenda o Líbano em um post de blog

gustavochacra

05 de novembro de 2013 | 15h33

O Líbano é uma nação sectária, conforme já escrevi aqui neste blog diversas vezes. E ser sectário significa que as diferentes religiões existentes dividem o poder e a sociedade, tentando conviver entre si de forma democrática. Não há nenhum outro país no mundo onde todas as religiões são minoritárias. Apenas o Líbano.

Primeiro, para entender, precisamos dividir o Líbano entre cristãos e muçulmanos. Os cristãos podem ser cristãos maronitas, cristãos grego-ortodoxos, cristãos grego-católicos (melquitas), assírios, siríacos, caldeus, armênios (tanto ortodoxos quanto católicos) e outras denominações menores, incluindo protestantes e católicos-romanos.

Os muçulmanos podem ser sunitas, xiitas e alauítas. Os drusos muitas vezes são incluídos entre os muçulmanos, mas, na prática, é uma religião diferente. No passado recente, também havia uma comunidade judaica numerosa. Desde os anos 1970, e não com a criação do Estado de Israel, que fique claro, ela praticamente acabou. Existem alguns judeus, especialmente americanos, vivendo no Líbano, mas como expatriados.

Calcula-se que atualmente existam 60% de muçulmanos e 40% de cristãos libaneses. Estes números, obviamente, não incluem os refugiados sírios e palestinos. Não há, além disso, um censo oficial há mais de sete décadas. Portanto trata-se de estimativa. As três religiões mais numerosas são a cristã maronita, muçulmano xiita e muçulmano sunita. Em seguida, veem os cristãos ortodoxos e os drusos.

O poder se divide entre todas as religiões. O presidente do Líbano e o chefe das Forças Armadas precisam ser cristãos maronitas. Isto é, não adianta apenas ser cristão. Precisa ser maronita, uma religião que segue o Vaticano, mas possui patriarca próprio e liturgia siríaca. O primeiro-ministro é muçulmano sunita. E o presidente do Parlamento, xiita. As outras religiões possuem cargos no gabinete ministerial, também subdividido entre todas as denominações descritas acima.

O Parlamento é metade cristão e metade muçulmano e druso. No lado cristão, existe subdivisões entre todas as denominações cristãs, com os maronitas sendo majoritários. No lado muçulmano, idem, com os sunitas e os xiitas possuindo o mesmo número de cadeiras.

Politicamente, as alianças políticas tendem a ser multi-religiosas. Na prática, uma delas, a 8 de Março, possui a quase totalidade dos xiitas, a maioria dos cristãos e uma minoria dos sunitas. A outra, 14 de Março, possui a maioria dos sunitas, uma minoria de cristãos e nenhum xiita. Os drusos tentam manter a neutralidade. Todas as facções religiosas majoritárias possuem milícias. A mais poderosa delas, obviamente, é o Hezbollah, xiita e aliado de partidos cristãos politicamente.

Na sociedade, também há divisões, inclusive geográficas. Os cristãos costumam viver na parte oriental de Beirute. Os sunitas, na parte ocidental. Os xiitas, no sul. Claro, há algumas áreas mistas, incluindo o centro. E esta divisão se acentuou na guerra civil. As regiões e vilas libanesas, normalmente mistas, também podem ser facilmente associadas a um grupo religioso. Se alguém disser que é de Bcharri ou de Zgharta, pode apostar, será maronita. Se for de Sidon, apostaria em sunita. De Zahle, melquita. De Baalbek ou Nabatieh, xiita. Se cresceu em Ashrafyeh, o sofisticado bairro cristão de Beirute, é ortodoxo. De Burj Hamoud, armênio.

A elite se mistura muito. Xiitas, sunitas e cristãos estudam juntos e desenvolvem amizades e relacionamentos nas escolas americanas, francesas e também nas principais universidades do país, como American University of Beirut, na Labanese American University ou na Universite St. Joseph. Entre a classe média e as classes mais baixas, a divisão é bem maior.

Em todas as religiões, há ricos e pobres. Não dá para cravar que cristãos sejam mais ricos do que sunitas ou xiitas e vice-versa.

No dia a dia, há sinais fáceis para identificar a religião de alguém. Por exemplo, o nome, a vila de onde veio ou  qual região de Beirute mora. Mesmo assim, há nomes como Fuad ou Samir que podem ser associados a qualquer religião, diferentemente de Antoine (provavelmente cristão) ou Mohammad (certamente muçulmano). Vilas algumas vezes são mistas. E nada impede um cristão de morar em uma área sunita.

As vestimentas, mesmo de mulheres, nem sempre entregam a religião. Sem dívida, uma mulher de hijab é muçulmana. Mas seria sunita e xiita? Uma com crucifixo, cristã. Mas e se estiver de jeans, camiseta e All Star, como é extremamente comum entre as jovens libanesas? Não dá para saber. Pode ser cristã, sunita, xiita ou drusa. Aliás, não caiam na bobagem de achar que xiitas são mais religiosas. Há famílias na qual uma irmã é religiosa e a outra usa biquíni e enche a cara na balada.

Normalmente, esqueci de dizer, cristãos, especialmente da classe média alta, falam francês. Entre os muçulmanos, há uma proximidade maior com o inglês. Mas isso é meio genérico e não dá para cravar nada nos dias de hoje. Normalmente, a elite é fluente nas duas línguas, enquanto as camadas mais pobres falam apenas árabe.

Enfim, não caiam nestes clichês de que existe um mundo islâmico com ódio do Ocidente. Isso não existe. Todos aqui admiram muito a educação ocidental e basta ver os nomes das universidades citadas acima. Também gostam de muitos símbolos do Ocidente. Ao mesmo tempo, tem orgulho desta nação mediterrânea minúscula, com metade do tamanho do Sergipe e que produziu uma das mais bem sucedidas comunidades imigratórias em todo o mundo, tendo feito presidentes, senadores e prefeitos em diversas nações, escritores, médicos, engenheiros e algumas das maiores fortunas do planeta. Isso independente de serem cristãos, muçulmanos ou judeus – os judeus libaneses são ultra bem sucedidos, inclusive no Brasil.

Europa, EUA podem ver o crescimento de algumas religiões. O Líbano, porém, é quem mais entende disso. Se quiser saber algo sobre relações entre islamismo e cristianismo, venham a Beirute. Não será em São Paulo, Nova York ou mesmo Paris que você encontrará a resposta. Para completar, esta é em uma das mais fenomenais metrópoles do mundo, na costa do mediterrâneo, com montanhas nevadas e uma culinária que todos conhecem muito bem no Brasil.  É difícil, ou quase impossível, não se apaixonar por Beirute.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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