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Entenda os atentados de hoje no norte do Líbano

gustavochacra

23 de agosto de 2013 | 10h28

Vejam meus comentários sobre Síria e Egito no Jornal das Dez da Globo News

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Dois atentados com carro-bomba ocorreram hoje diante de mesquitas em Trípoli, no norte do Líbano, matando ao menos 27 pessoas e ferindo centenas. A ação ocorre uma semana depois de ataque terrorista atingir Dahieh, nos subúrbios de Beirute, com um total de 18 vítimas fatais.

Na ação da semana passada, os mortos eram xiitas. Na de hoje, sunitas em sua maioria. Estes dois ramos do islamismo hoje estão divididos tanto no Líbano como também em relação à Guerra da Síria. Cada uma delas representa cerca de um terço da população libanesa, com outro terço sendo composto por cristãos, além de minorias drusa e alauíta.

Trípoli, palco dos atentados de hoje, é uma cidade majoritariamente sunita, com presença de cristãos ortodoxos e alauítas, e está instável há anos. Pelo menos, desde de 2007, quando houve a operação em Naher el Bared, um campo de refugiados palestinos. Na época, o Exército, com amplo apoio de todas as principais facções políticas libanesas, entrou nesta área para eliminar a presença de salafistas, uma vertente radical do islamismo sunita.

Ao longo dos anos, sempre houve combates envolvendo sunitas e alauítas em algumas regiões da cidade. Carros-bomba também explodiram no passado. O cenário se agravou com a guerra civil da Síria. Os alauítas e os cristão tendem a defender o regime de Assad, de viés secular, enquanto os sunitas são a favor dos rebeldes, normalmente conservadores religiosos.

A presença de salafistas em Trípoli cresceu acentuadamente nos últimos anos. Eles costumam não respeitar as tradicionais autoridades sunitas libanesas. Portanto, não estão propensas a aceitar acordos envolvendo as diferentes religiões libanesas para tentar manter a balança de poder. Há insatisfação, por parte deles, com o Hezbollah, uma organização xiita, se envolvendo diretamente na Guerra da Síria.

O Hezbollah, historicamente, sempre se manteve distante de Trípoli. Não é uma área com forte presença xiita. Sem dúvida, existe uma simpatia do grupo com os alauítas e os cristãos ortodoxos, que são normalmente seus aliados políticos. Mas, geograficamente, não tem a importância do norte do vale do Beqaa, dos subúrbios de Beirute e do sul do Líbano.

Para a organização xiita libanesa, neste momento, o ideal seria estabilidade no país pois eles precisam lutar na Síria e, ao mesmo tempo, manter um estado de contingência no sul diante da possibilidade de um novo conflito contra Israel.

O problema é que seus adversários têm crescido em número no Líbano. E não são apenas os tradicionais, como a ala sunita favorável a Saad Hariri. Estes não querem guerra. Os rivais de hoje são dezenas de milhares de refugiados sírios, além dos salafistas. Nos últimos meses, o Hezbollah acabou vendo seu território em Dahieh ser alvo de ataques atribuídos a salafistas ou refugiados sírios. Por enquanto, o grupo vinha mantendo a cautela.

Hoje, porém, com  o atentado alvejando salafistas em Trípoli, certamente a suspeita recairá sobre o Hezbollah. Seria uma resposta à ação em Dahieh na semana passada. Por outro lado, não se pode descartar a possibilidade de atores internos ou externos terem provocado os ataques para acentuar as divisões sectárias no Líbano. 

Estes episódios, caso continuem se acumulando, e esta é a tendência, agravarão cada vez mais a instabilidade no Líbano, um país que já passou por 15 anos de Guerra Civil entre 1975-90. Um novo conflito não pode ser descartado. Mas ainda dá tempo para evitar. 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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