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Presidente da Síria concede entrevista exclusiva ao Blog – Parte 2 (Guerra, Irã, Iraque, EUA, Líbano)

gustavochacra

29 de junho de 2010 | 08h29

Segue a segunda parte da entrevista exclusiva do presidente Bashar al Assad. Conforme afirmei no post anterior, o líder sírio me recebeu na semana passada em Damasco. No post anterior,coloquei as perguntas relacionadas a Israel e às colinas do Golan. Neste, o presidente responde a questões relacionadas ao Irã, EUA, Iraque, Líbano e política interna síria. Na quinta, colocarei os bastidores da entrevista.

Há risco de guerra entre Israel e Síria?  Um ataque israelense ao Irã levaria toda a região para um conflito?

Assad – Sempre há risco enquanto não houver paz.  Pode se elevar ainda mais a possibilidade de guerra quando existe um governo (Israel) trabalhando contra a paz, especialmente quando este governo apenas ameaça os outros.  Por isso achamos que o risco é muito alto.  Não temos evidências porque ninguém sabe quando haverá ou não guerra.  Como governo, não podemos dizer que a possibilidade seja 60% ou 10%, porque, mesmo que seja 1%, este 1% significa guerra e pode se transformar em 100%.  Portanto, temos de trabalhar como se fosse ocorrer uma guerra porque não temos um parceiro na paz.  Esse é o problema.  Este governo de Israel é extremista.  Não são parceiros na paz. É preciso se preocupar com suas ações, como a realizada contra os turcos quando eles atacaram a flotilha de Gaza.  Isso indica que o governo de Israel está se movendo na direção da guerra, não da paz.

A acusação de que a Síria forneceu mísseis Scud para o Hezbollah é verdadeira?

Assad – Isso foi para desviar a atenção de seus problemas, especialmente em Gaza.  Eles (os israelenses) falaram sobre mísseis e têm falado disso há anos.  Mas cada vez eles mudam o nome do armamento.  E sempre adicionam algo novo, como se fosse algo novo no mercado.

Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, em vez de criticar Israel pelos assentamentos na Cisjordânia ou o bloqueio a Gaza, prefere questionar o Holocausto.  O sr. concorda com isso?

Assad – Acho que a política deve ser dividida em duas partes – o discurso político e as ações.  Claro que as ações são mais importantes. É como quando você diz que eu tenho uma boa imagem, mas uma má realidade.  Logo, é mais importante ter uma boa realidade, antes de ter uma boa imagem.  Consequentemente, se eu fosse avaliar Ahmadinejad, eu avaliaria as suas políticas, que não trabalham contra a paz.  Nos fomos na direção da paz.  E sempre tivemos boas relações com o Irã e os iranianos sempre apoiaram a Síria.  Na realidade, o Irã apoia a paz.  Em segundo lugar, há um sentimento geral na região desde a ocupação da Palestina de que os árabes, especialmente os palestinos, pagam o preço do Holocausto.  O Ocidente tem um complexo sobre o que ocorreu na 2.ª Guerra.  E acabam ignorando o que Israel faz na região.

Mas, ao questionar o Holocausto, Ahmadinejad não prejudica os palestinos?

Assad – Eu disse em discurso no Catar em 2008 que o que está acontecendo em Gaza é um Holocausto.

Obama melhorou a relação dos EUA com a Síria?  Afinal, de um lado, envia emissários como John Kerry (senador democrata) e nomeia um embaixador para Damasco.  De outro, mantém sanções no Congresso.

Assad – Nós podemos sentir uma posição diferente neste governo.  Eles não tentam mais ditar as coisas no Oriente Médio.  Isso é importante, mas não há nada além de diálogo por enquanto.  Tivemos alguns passos triviais, como a nomeação de um embaixador e o fim do veto à inclusão da Síria na OMC (Organização Mundial do Comércio).  Estamos no começo da relação.  Não sei até onde poderemos chegar com essa administração, porque ela não é apenas o presidente Obama.  Existem outras instituições, como o Congresso, que aprovou a lei com sanções à Síria.  Não sabemos o que o presidente pode fazer em relação a essa lei.

Podemos dizer que o que vem ocorrendo eh pouco.  Levara muito tempo ate falarmos de uma relação normal entre os EUA e a Síria, especialmente com um Congresso que não ajuda o presidente.  Como você disse, John Kerry (senador democrata) tem vindo a Damasco e conversamos sobre a paz e relações bilaterais.  Mas estamos nos movendo muito devagar.

As relações com o Líbano se normalizaram depois das visitas do presidente libanês, Michel Suleiman, e do premiê, Saad Hariri, a Damasco?

Assad – Estamos melhorando.  Fizemos grandes avanços com estas visitas.  Estamos voltando a normalidade.  O único obstáculo e a situação interna no Líbano.  Enquanto tivermos divisões entre os libaneses, isto se refletira nas relações com a Síria.  No fim, se um lado apoia as relações com a Síria, o outro ficara contra.  Nós achamos que quanto mais os libaneses se unirem, melhor ficará a relação com a Síria.

Ainda há risco de mais problemas no Iraque?

Assad – Este é um momento crítico por causa das eleições.  Se houver um governo com uma mentalidade mais aberta, será bem melhor porque os iraquianos se sentarão para discutir todos os assuntos, até mesmo a Constituição e novas instituições.  Mas ainda não é estável porque as mudanças de que falamos ainda não ocorreram.  Apenas tivemos eleições e os iraquianos não conseguiram formar um governo.  Eles precisam formar um governo e é necessário que seja um bom.  Se eles falharem, os iraquianos pagarão o preço.

A Síria recebe ajuda para lidar com 1,2 milhão de refugiados iraquianos no país?

Assad – Ninguém ajuda.  Eles (os EUA) criaram esse problema e não querem nos ajudar e não permitem que o governo iraquiano nos ajude.  Portanto os custos estão com a Síria.  Mas este não é apenas um problema humanitário, mas político.  Imagine se eles voltassem para seu país sem educação, na pobreza?  Iriam diretamente para o extremismo.  Portanto temos de recebê-los e fazê-los se sentir num país normal.  Não os tratamos como refugiados, mas como hóspedes.  No caso dos palestinos, são meio milhão e eles têm todos os direitos na Síria, menos a nacionalidade e o voto.

Sua administração trouxe avanços na economia.  Por outro lado, seus críticos dizem que a abertura política foi interrompida.  O sr. pretende reiniciar a abertura?  Por que é tão difícil?

Assad – Nós não começamos algo e depois paramos.  Desde o começo, quando começamos a reforma, houve diferentes avaliações sobre a velocidade.  Alguns dirão que foi muito rápida.  Outros, que foi lenta.  Na verdade, nós não interrompemos.  Mas abrimos a uma base metódica.  Não fazemos as coisas porque somos entusiasmados como pessoas fanáticas ou românticas.  Nós sabemos o que estamos fazendo.  Começamos a reforma da economia em 2000, mas apenas sentimos a abertura em 2007, 2008.  Demoraram sete, oito anos porque foi necessária uma reforma legislativa e o diálogo.  Não pode haver reforma sem diálogo.  E como começamos o diálogo?  Abrimos a mídia primeiro.  Depois a internet.  Quando assumi (em 2000), havia 30 mil usuários na Síria.  Hoje, são 3 milhões e somos o país árabe que registra mais crescimento na área.  Temos imprensa privada.  Ha diferentes jornais, revistas, canais de TV.  Portanto, estamos nos movendo.  Se você me perguntar se é rápido, eu diria que não é rápido, mas é difícil medir a velocidade.  Diria que vamos o mais rápido possível com a menor quantidade de efeitos colaterais.

Com a Síria fora da Copa do Mundo, para quem o sr torce? Argentina por causa da grande comunidade de imigrantes sírios?

Assad – Sempre torci para o Brasil. Vocês venceram cinco Copas. E eu gostava muito do Sócrates e do Zico.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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