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Erdogan – o anti-Curdo, anti-Armênia, anti-Chipre e anti-Israel

gustavochacra

01 Março 2013 | 13h00

Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro da Turquia há 12 anos, desfruta de enorme admiração internacional, incluindo nos Estados Unidos, onde constantemente recebe elogios do presidente Barack Obama. Seu principal feito teria sido colocar a economia turca nos trilhos e defender a democracia em países vizinhos.

Agora, vamos ver o outro lado de Erdogan. Até 2011, era o melhor amigo de Bashar al Assad. Mais até do que o Irã. Os investimentos turcos na Síria superavam os iranianos. Cartazes dele pelas ruas de Damasco, e isso eu presenciei pessoalmente, eram mais comuns do que os do líder sírio.
Em 2008, o premiê turco quase levou adiante um acordo de paz entre Israel e a Síria para o retorno das colinas do Golã, anexadas ilegalmente, segundo a ONU e até mesmo os EUA, para os sírios. Em determinado momento, ele estava com Assad ao lado enquanto conversava com Ehud Olmert, então primeiro-ministro de Israel, do outro. Era o mediador e as negociações fracassaram depois do início do conflito envolvendo Israel e o Hamas em Gaza.

Erdogan nunca perdoou os israelenses. Naquele momento, as relações entre a Turquia e Israel, antes aliados militares e com relações estreitas, se deterioram. Erdogan brigou publicamente com o presidente de Israel, Shimon Peres. Depois, deu apoio à Flotilha de Gaza. Independentemente do que o leitor achar desta ação, Israel era contra e o premiê turco sabia disso.

As ações anti-Israel prosseguiram e agora  tiveram mais um episódio de provocação por parte de Erdogan. Segundo o premiê, a islamofobia deveria “ser considerada um crime contra a humanidade como o antissemitismo, o fascismo e o sionismo”. Tudo bem comparar ao antissemitismo e o fascismo. Mas obviamente seu objetivo foi atacar infantilmente Israel ao incluir o sionismo.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, já protestou e lamentou que Erdogan tenha feito esta declaração. Serve para acalmar os ânimos e os americanos tentam diplomaticamente evitar um distanciamento ainda maior da Turquia e de Israel, que não ajuda em nada em um Oriente Médio em colapso com a Guerra da Síria, um país com fronteira com os dois países aliados dos EUA.

Para completar, Erdogan, que adora posar como o adulto do Oriente Médio (e da Europa também), é conivente e responsável direto pela repressão aos curdos na Turquia, onde esta minoria não tem direitos de manifestar a sua identidade cultural, pela ocupação ilegal da parte norte do Chipre e pela relutância em aceitar ao menos uma discussão sobre o genocídio armênio. Por último, ainda concede apoio a grupos johadistas na Síria.

Portanto, se Israel tem a questão da ocupação da Cisjordânia com os assentamentos, a Turquia tem a ocupação do Chipre, a repressão aos curdos e o não reconhecimento de um crime contra a humanidade – o genocídio armênio.

Obs. Antes que me esqueça, Erdogan tem restringido a liberdade de imprensa na Turquia, prendendo dezenas de repórteres críticos ao seu governo

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios