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Espionagem, Hezbollah, Armênios e o vice dos EUA – em cartaz, a eleição libanesa

gustavochacra

26 de maio de 2009 | 09h47

Prisões de espiões, uma visita do vice-presidente dos EUA em campanha aberta para a coalizão 14 de Março, a acusação de que o Hezbollah estaria por trás do assassinato de Rafik Hariri há quatro anos. Faltando menos de duas semanas, o Líbano, como era esperado, vive um momento tenso antes das eleições. E muitos dos eventos que observaremos nos próximos dias estão diretamente relacionados com o voto. O último deles foi dizer que os cristãos armênios apóiam a coalizão da qual faz parte o Hezbollah, conhecida como 8 de Março, apenas para evitar perseguições na Síria e no Irã.

Para entender um pouco, temos que observar caso a caso. Os espiões sempre existiram no Líbano. Grande parte deles é libanesa mesmo. Trabalhavam para Israel em troca de dinheiro. Simplesmente assim. Começaram a ser descobertos agora porque os serviços de inteligência do Hezbollah, aliados aos do governo, com um melhor sistema de monitoramento, conseguiram desmontar algumas redes de espionagem. Outras ainda existem. Operam não apenas para Israel, como também para Síria, Arábia Saudita, Irã, EUA e Rússia.

Joe Biden errou feio ao fazer campanha no Líbano. Não adianta nada e ele, apesar de se dizer especialista em política externa, parece não entender a política local. Imagine um vice-presidente dos EUA vindo ao Brasil para apoiar um candidato – no caso do Líbano, coalizão – para a eleição? A decisão do governo de Obama de enviar Biden coloca em risco os interesses americanos em caso de vitória da 8 de Março. E, que fique claro, o Hezbollah integra a coalizão. Mas, sem os cristãos, o Hezbollah automaticamente perderia a eleição. Apenas tem chance porque possui o apoio de parcela considerável do voto cristão.

Neste ponto, pulamos para os armênios. No Líbano, não há grupo mais moderado e cosmopolita do que os armênios. Provavelmente, é uma das diásporas mais bem sucedidas em todo o mundo. Alguns estão há séculos no país dos cedros, mas a maioria veio mesmo depois de ter sofrido o genocídio na Anatólia. O partido que os representa, chamado Tashnag, fez um acordo com a coalizão da qual faz parte o Hezbollah. Obviamente que não foi para evitar perseguições em Damasco e Teerã, como dizem alguns. Na verdade, os armênios sempre tiveram um viés pró-Síria. No caso da eleição, a opção foi por questões menores. A 14 de Março ofereceu menos cadeiras do que os armênios teriam direito em alguns distritos. Como a 8 de Março propôs uma oferta melhor, levou o voto armênio que tem enormes chance de decidir a votação.

Para finalizar, a questão do Hezbollah na morte do Hariri. A Der Spiegel, que publicou a informação, é uma revista séria. A melhor da Alemanha. Mas, no caso das investigações, não custa nada esperar pelo relatório oficial da ONU. Tempos atrás, diziam haver provas de que a Síria seria a responsável. Agora, às vésperas da eleição, o Hezbollah se tornou suspeito. O certo, no Líbano, é que, com raríssimas exceções, nunca se descobriu quem foi o responsável por um carro-bomba. Em um sistema de troca de alianças inacreditável para um estrangeiro, tudo pode acontecer. Até mesmo Hariri, aliado e com residência em Damasco, se tornar líder da oposição à Síria no Líbano até ser assassinado em atentado. E o cristão Michel Aoun, que passou 15 anos no exílio atacando os sírios, retornar a Beirute para se aliar justamente a Bashar al Assad.

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