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Estive dez vezes na Síria. E, afinal, como é a mágica Damasco?

gustavochacra

17 de novembro de 2015 | 20h26

É triste ver como falam da Síria, como se os sírios fossem selvagens radicais. Mas não é bem assim. A Síria, embora seja um país novo, possui cidades milenares como Damasco e Aleppo. Por muitos anos, chegaram a ser das cidades mais cosmopolitas do mundo.

Estive dez vezes em Damasco. Sou brasileiro, de origem cristã libanesa pelo lado paterno. E fui muito bem recebido todas as vezes. Damasco, não podemos esquecer, possui patriarcados cristãos – o Ortodoxo, o Melquita e o Siríaco. Ao todo, 12 apóstolos cristãos viveram em Damasco, incluindo Mar Boulus, que significa São Paulo em árabe e dá nome à maior cidade do Brasil.

Em Damasco, há dezenas ou mesmo centenas de milhares de cristãos. Eles vivem nesta região há séculos, provavelmente desde a época de cristo. Na cidade velha, há o bairro de Bab Touma, ou Portão Tomás, em homenagem a São Tomás. Nesta área, e em toda Damasco, cristãos circulam livremente com seus amigos muçulmanos alauítas, sunitas, drusos e ateus.

Damasco, quando os EUA invadiram o Iraque, recebeu centenas de milhares de refugiados cristãos iraquianos. Eles não tinham para onde ir. Ninguém se importava ou sequer sabia que tinha cristãos no Iraque. Mas a Síria os recebeu e deu saúde e educação gratuita, além de direito ao trabalho, sem nenhuma ajuda externa. Já pensou se o mundo fosse assim com os sírios?

Os bares e restaurantes de Damasco servem álcool. Afinal, quantos países do mundo podem dizer que possuem uma bebida nacional do calibre do Arak? Os clubes, que lembram os brasileiros e tem quadras de tênis, piscina e campo de futebol, reúnem a classe média local para pegar um bronze no verão. A capital síria, inclusive agora, tem altas baladas e a paquera rola solta. Parece muito o interior paulista ou mesmo São Paulo e Belo Horizonte. Muitas mulheres não se cobrem. Algumas usam véu. Qual o problema? De burqa, é raro. Há uma chance maior de ver uma mulher de burqa em Londres. Honestamente, nunca vi em Damasco.

Os táxis são amarelos e, pasmem, muitas vezes o taxímetro funciona, diferentemente do Cairo ou de Beirute. O trânsito é relativamente decente. A estrada que liga a fronteira do Líbano a Damasco tem pista dupla, asfalto novo e posto de gasolina que lembra o Graal. Até parece a Castelo Branco.

Aos domingos, uma das marcas de Damasco são os sinos das igrejas. É um cenário mágico, dentro da cidade velha. Tem missa em aramaico, algo raro em muitos países. E alguns fiéis são fluentes em aramaico, diferentemente de muitos líderes de igrejas ao redor do mundo que não sabem falar a língua de cristo. Não muito longe dali, está a esplendorosa mesquita dos Omíadas. Dentro, a tumba de São João Batista. E sim, cristãos podem entrar, visitar e tirar fotos. Depois, vale tomar um sorvete no Bakdash dentro do Suq al Hamidiya. Pelas ruas, aquele cheiro gostoso de narguilé e muita gente jogando gamão enquanto toma chá ou café.

E tem a comida síria, similar à libanesa e que nós conhecemos tão bem no Brasil. Kibe, esfiha, kafta, charuto de folha de uva, hummus, coalhada seca. Dá vontade de comer depois de escrever este texto.

Tem também shopping em Damasco. Um ao lado do outro. São dois sócios que brigaram. E cinemas modernos, que passam filmes ocidentais. Em um deles, dá para comer comida japonesa enquanto vê o filme. A Universidade de Damasco é parecida com as brasileiras. Os estudantes também. Tire uma foto e parecerá a UFRJ.

Muitos sírios, especialmente os da elite, se consideram ocidentais. Lembra um pouco nós brasileiros, que também nos consideramos ocidentais, embora o Ocidente não nos considere.

Os damascenos, assim como os parisienses, sempre tiveram a alegria de viver. Mas a guerra atingiu o país. O Brasil tem sorte de não ter guerra, embora tenha mais homicídios em todas as suas capitais do que em Damasco. Mas guerra é diferente. A Europa teve guerra nos anos 1940, quando meu pai nasceu. Não faz muito tempo. Foram dezenas de milhões de mortos.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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