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EUA temem, corretamente, um regime extremista sunita no lugar de Assad na Síria

gustavochacra

30 Maio 2012 | 09h04

no twitter @gugachacra

A Casa Branca, por meio de um porta-voz, afirmou que uma intervenção militar na Síria neste momento “apenas aumentaria o caos e a carnificina”. Sem dúvida, o governo de Obama toma a decisão correta ao não se intrometer militarmente para conter a violência e avalia perfeitamente o cenário no território sírio. A expulsão de embaixadores e outras medidas simbólicas são o máximo que os Estados Unidos e seus aliados europeus podem fazer neste momento.

Ainda assim, outras nações, como o Brasil e a Suécia, consideram necessário manter os canais diplomáticos – em tempo, os americanos também pensavam assim até o começo deste ano e uma série de fatores internos, especialmente a pressão republicana em ano eleitoral, os levou a alterar a posição.

Independentemente destas medidas quase inócuas, a crise síria não pode mais ser descrita como a de um regime repressor matando com a Forças Armadas manifestantes pró-democracia. No início, até foi assim. Hoje, o contexto é bem maior.

Primeiro, o regime ainda reprime os opositores, mas usa não apenas as Forças Armadas como também milícias denominadas shabiha. São civis defensores de Bashar al Assad e operam em todo o país. A maior parte deles é composta por cristãos e alauítas que temem a instalação de um regime extremista sunita na Síria no futuro.

No massacre de Houla, houve primeiro disparos de tanques do Exército. Mas as execuções foram levadas adiante por estas milícias que operam com relativa independência e consideram este conflito uma luta de vida ou morte. Suas vilas cristãs e alauítas ao redor de Homs também foram atacadas e um dos líderes destas duas religiões na região foi morto por opositores às vésperas da ação. Conflito sectário é assim – Sabra e Chatila, no Líbano, que o diga. Apenas quem não conhece as nações do Levante fica surpreso.

Esta divisão sectária existente especialmente nas regiões e Homs e Hama não se repete nas grandes cidades. Em Aleppo e Damasco, as elites sunitas, junto com as cristãs e alauítas, se posicionam ao lado de Assad, enquanto as camadas mais baixas e as facções mais religiosas estão contra o regime.

Em segundo lugar, a oposição também se divide em dois grupos – os armados e os manifestantes pacíficos. Aos poucos, os que portam armas começam a chamar a atenção e se sobrepor aos demais. E estes grupos armados também se dividem em dois. Há os desertores, que integram o Exército Livre da Síria, que lutam ao lado de alguns civis das regiões atingidas pela repressão, e os ligados a organizações salafistas apoiadas por braços de nações do Golfo Pérsico.

Esta multiplicação de milícias a favor e contra o governo, na avaliação da Casa Branca, impede qualquer forma de intervenção. Militares estrangeiros seriam sugados para o conflito, sem chance de sucesso, em uma repetição dos fracassos nas tentativas de impor a paz no Líbano nos anos 1980. Além disso, como o New York Times escreveu hoje, apesar de todo o discurso contra Assad, os EUA temem mesmo que um regime extremista sunita assuma o poder no ligar do atual líder sírio, que possui caráter secular.

O único país que detém algum domínio sobre a situação é a Rússia. Mas o governo de Vladimir Putin não se importa com desrespeito aos direitos humanos. Suas relações com Assad rendem frutos, como o uso do porto de Tartus como base no Mediterrâneo e a venda de armas para o regime. Para completar, existem as ligações com os cristãos ortodoxos sírios.

Aceitem, não tem como interromper a violência na Síria. Eles irão se matar até cansar.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios