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Faça um teste e imagine que você seja um cristão (ou alauíta) democrata na Síria

gustavochacra

01 de dezembro de 2011 | 11h19

no twitter @gugachacra

Antes de começar, entrem para escolher no portal do Estadão o fato mais marcante de 2011.

Imagine que você seja um cristão sírio vivendo em Damasco hoje. No caso, você defende os valores democráticos. Se pudesse, gostaria que a Síria fosse a Suécia. Advogado, fez LLM na Universidade de Chicago. Seu filho mais velho quer seguir a sua carreira e estuda direito na Universidade de Damasco. No Facebook, ele conversa sempre com o primo, que vive em Detroit. Os dois desfrutam dos mesmos interesses, a não ser pela diferença de um preferir futebol e o Liverpool e outro ser fanático por baseball e o Tigers.

Todos os domingos este advogado, chamado Samir, vai com o filho Adnam,a filha, Yasmine, e a mulher, Leila, buscar a sua mãe em Bab Touma e participar da missa na Igreja Assíria da cidade velha de Damasco. Fluente em aramaico, ele cobra do filho que estude mais a língua de cristo para as orações.

Yasmine usa os cabelos soltos e passou parte do verão na casa de uma amiga alauíta em Tartus. As duas usavam biquíni na praia e à noite saíam com os namorados para a balada. O melhor amigo dela é gay e as levou um dia a uma festa de homossexuais. Adbam prefere mais os shows de rock. Toca violão e tem deixado o cabelo crescer.

Os dois nunca foram para a Arábia Saudita. Feminista como a mãe, Yasmine repudia a forma como as mulheres são tratadas pelos homens em Riad. Na classe, ela sempre gosta de discutir com os colegas homens. Para eles, como a Síria, apenas existe um país árabe liberal – o Líbano. Mas desde 2005 deixaram de visitar Beirute porque o carro de um de seus tios foi apedrejado por ter uma placa da Síria depois da morte de Rafik Hariri.

Através de uma fita pirata, assistiram ao filme israelense A Noiva Síria. Os dois irmãos ficaram fascinados como Israel conseguiu mostrar a ocupação do Golã de uma forma pró-Síria.  Eles nunca imaginariam uma novela síria tratando do tema dos ataques terroristas contra os israelenses. No Google Street, ela também ficou observando a arquitetura Bauhaus de Tel Aviv e sonha em conhecer a cidade. Ao mesmo tempo, o pai, Samir, lembra para os filhos que, na idade deles, chegou a nadar no mar da Galiléia. Mas hoje a região é ocupada por Israel. Também conta de seu amigo Farid, de 75 anos, um cristão palestino que teve a família expulsa de Jaffa e precisou ir viver em Damasco.

Hoje, eles amanheceram e viram no jornal que a Irmandade Muçulmana está vencendo as eleições no Egito. Adnam também comenta que o goleiro de futebol da sua classe é um cristão que precisou fugir do Iraque. Samir diz que seu sócio, um cristão de Homs, está desesperado porque o Exército não está conseguindo mais segurar o avanço dos conservadores sunitas (como eles chamam os opositores). A Arábia Saudita, de onde vêm aqueles homens em busca de profissionais do entretenimento adulto em Damasco, censura o regime sírio na Liga Árabe. Na rua, Yasmine foi advertida por um vendedor de que os dias de ela usar aquela calça justa estão contados.

Samir, um democrata que queria o fim do regime de Assad com todas as forças, não sabe o que fazer. Como defender um homem que cada vez mais massacra o seu próprio povo, cometendo crimes contra a humanidade e matando 263 crianças? Advogado, ele quer justiça e acha que o lugar do governante é Tribunal Penal Internacional de Haia. Seus negócios também começaram a ir mal. Perdeu a conta de empresas dos Emirados que retirarão seus negócios de Damasco. Um investidor turco também deixou de lado a aquisição de um hotel boutique na cidade velha. A situação financeira se agravou. Mas ele quer dar um tablet chinês para o filho de Natal.

Na época que viveu nos EUA, conseguiu um passaporte. Há duas semanas, um amigo de infância em Nova York o convidou para ser sócio em um restaurante no Brooklyn. A filha estava vendo mestrados em arquitetura na NYU. Seu objetivo é ser uma nova Zaha Hadid.

Hoje, Samir tem três opções. Primeiro, pode se aliar à oposição contra o regime ditatorial de Damasco e correr o risco de ser torturado ou mesmo morto. Além disso, sabe que a Yasmine não teria as mesmas liberdades da geração da Leila. A segunda opção é defender o regime. Mas como ser humano fica difícil apoiar algo que mata crianças. Por último, resta a opção de ir para os EUA. O que você acha que ele fará?

E, insisto, cito um caso fictício de alguém com condições de mudar de país. Os cristãos iraquianos, ao serem perseguidos, foram recebidos quase que apenas pela Síria. Sem os sírios, sobra o Líbano. Os demais países árabes querem distância dos cristãos. Isso sem falar nos alauítas. Estes tem apenas as suas montanhas para se refugiar.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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