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Gemeyze é a Vila Madalena de Beirute

gustavochacra

24 de setembro de 2008 | 14h32

São Paulo tem a Vila Madalena. Buenos Aires tem Palermo Viejo. Nova York tem o Lower East Side. E Beirute tem Gemeyze. Assim como em outras grandes cidades do mundo, esta região na parte cristã de Beirute reúne uma série de restaurantes, cafés, lojas e bares que lotam até mesmo em uma terça-feira e que transformaram uma área antes calma no coração noturno da cidade. E que coloca Beirute no rol das “world class cities”.

A entrada de Gemeyze, que é o nome de uma rua mas que serve para descrever todo o bairro, é diante de Seif Village, uma charmosa área destruída durante a guerra civil, mas que foi recuperada e hoje tem alguns dos imóveis mais caros de Beirute que pertencem a jovens libaneses que ganham altos salários nos países do golfo Pérsico.

Lotado de mulheres de 20 a 80 anos, e alguns poucos homens fumando charuto, o Paul se localiza na primeira esquina de Gemeyze e é um café que simboliza bem esta região da capital libanesa. Sem dúvida, a melhor vitrine do que se verá pela frente. Ao entrar, os garçons recebem dizendo “bon jour”. O cardápio é todo escrito em francês, exatamente igual ao da matriz de Paris. Os jornais e revistas também são francófonos, sendo muitos deles, como o L’Oriente Le Jour, editados em Beirute. Nas mesas, as pessoas falam mesmo em francês. Todos os funcionários obrigatoriamente se dirigem aos clientes na língua européia e raramente se escuta árabe.

Pode parecer exibicionismo, mas no caso de Beirute não é. O Líbano fez parte do mandato francês e, mesmo em tempos otomanos, a França já exercia enorme influência cultural sobre a região. Prova disso é o colégio Sacre Coeur, que fica ali mesmo em Gemeyze. Essa escola católica foi fundada por franceses em 1894, na época em que Beirute ainda fazia parte do Império Otomano. O francês é ensinado em quase todas as escolas, além de ser o idioma oficial da Universidade Saint Joseph.

No restante da rua, em construções de mais de um século, há restaurantes japoneses, bares mexicanos, cantinas libanesas, cafés turcos e uma série lugares temáticos e fusion que se transformam em baladas à noite. A maioria, similares aos da Europa e Estados Unidos, onde vivem muitos expatriados libaneses que retornam ao país trazendo idéias dos tempos no exterior. Mas sem introduzir as regras do Ocidente. Aqui, cigarro, charuto e narguilé são liberados.

Nas ruas, jovens dirigem em SUV’s, conversíveis e motos que deixam com manobristas, interrompendo o trânsito sem a menor cerimônia. As pessoas se vestem de acordo com o que se chama de moda ocidental. Mas é difícil ver homens de camiseta e tênis. Sempre estão com camisas caras e calça social com sapatos. Alguns fazem o tipo metrossexual. As mulheres desfilam no estilo Sex and the City. É bem raro ver uma menina meio surfistinha ou hippizinha que encontraríamos na Vila Madalena de São Paulo. Afinal, Gemeyze é a de Beirute.

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