Guia dos 99 anos do Genocídio Armênio, vergonhosamente não reconhecido pelo Brasil
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Guia dos 99 anos do Genocídio Armênio, vergonhosamente não reconhecido pelo Brasil

gustavochacra

24 de abril de 2014 | 00h47

Reino Armênio da Cilícia

Rotas de deportação, praticamente o único destino final era Der Zor (círculo branco abaixo)
Reino de Tigran, o Grande – Maior extensão da Armênia já alcançada

Nesta quinta-feira, sia 24 de abril, marca os 99 anos do início do Genocídio Armênio, um dos maiores genocídios do século 20. Países como França, Alemanha, Itália, Líbano, Argentina, Uruguai e Chile reconhecem o genocídio armênio, assim como 43 Estados americanos, o Estado de São Paulo, Paraná e Ceará.

O Brasil, de forma vergonhosa, nojenta e humilhante, não reconhece o genocídio. Imaginem se Fernando Henrique Cardoso, Lula ou Dilma não reconhecessem o Holocausto ou o genocídio em Ruanda? Basta lembrar de Mahmoud Ahmadinejad, ex-presidente do Irã. E não é apenas o Brasil.

Os Estados Unidos tampouco reconhecem oficialmente, apesar de avanços na Câmara e no Senado. O presidente Barack Obama, quando era senador, reconhecia e criticava George W. Bush por não reconhecer o genocídio. Depois de se eleger presidente, seguiu sem o reconhecimento.

Israel é outro país que surpreendentemente não reconhece o genocídio armênio. Afinal, o povo judeu foi vítima do Holocausto e judeus ao redor do mundo reconhecem o genocídio armênio. Por que o governo israelense não faz o mesmo?

O argumento destes países seria as relações com a Turquia. No caso dos EUA, os turcos são membros da OTAN e estão uma das nações mais estrategicamente localizadas do planeta. O problema é que outros integrantes da OTAN, como Alemanha e França, reconhecem o genocídio.

Israel teria o argumento de a Turquia ser o seu principal parceiro militar em uma região repleta de inimigos. Mas este argumento também não se sustenta, já que o Líbano, um minúsculo país, reconhece o genocídio e mantém boas relações com a Turquia.

E o Brasil? Relações com a Turquia? Até que ponto, uma vez que argentinos, uruguaios e chilenos não tiveram problemas ao fazer o reconhecimento.

O governo turco não reconhece o genocídio, mas admite que centenas de milhares morreram. A diferença, de acordo com a Turquia, é que teria sido em consequência da guerra.

Para completar, semanas atrás, rebeldes da oposição síria entraram na vila armênia de Kassab e expulsaram e mataram seus moradores. Os armênios da Síria, por serem cristãos, costumam apoiar o regime laico de Bashar al Assad, temendo o radicalismo islâmico da oposição, que tem apoio da Turquia e países do Golfo.

Para esclarecer melhor o Genocídio Armênio, fiz esta entrevista com o professor de armênio da USP Sarkis Sarkisian, um dos maiores especialistas no assunto no Brasil

Por que os armênios, ao fugirem do genocídio, se sentiram mais próximos dos cristãos libaneses e sírios, se estabelecendo em Burj Hamoud, Aleppo e outras áreas, em vez de buscar abrigo dos armênios do Império Russo?

A Armênia ficou dividida entre o Império Russo e Otomano até a queda destes com a Primeira Guerra Mundial. A parte russa é a região histórica armênia, no planalto armênio – região do Monte Ararat, de onde se liga as origens do povo. Os armênios da Armênia turca se estabeleceram primeiramente na região costeira da Cilícia. Eles foram para esta área quando os turcos seljúcidas invadiram a região histórica Armênia em 1071, quando ocorreu a queda da última dinastia em território ancestral armênio e parte do povo se refugiou na Cilícia.

Nessa região, estabeleceram um reino que durou até 1375. Posteriormente, foi anexado ao Império Otomano. Toda essa explicação para situar que a Armênia turca foi a mais sofrida pelo genocídio, sendo que a parte mais ao leste sentiu as reações um pouco depois e também encontrava-se mais sob o avanço russo.

Os armênios já haviam se estabelecido na Terra Santa desde os primórdios do cristianismo e nos países da região também. O que ocorreu no genocídio foi que as deportações tinham como ponto final os desertos da Síria, o mais famoso Der Zor. Muitos campos de órfãos e refugiados foram estabelecidos na Síria, como primeiro destino dessa diáspora, depois que foram se reestabelecer em outros países como França, EUA e etc.

Os armênios foram os fundadores de Burj Hamud (Líbano) e a comunidade é muito grande lá justamente por conta desses refugiados do genocídio. Em Aleppo (Síria), a situação é similar, com um agravante de que fora parte da Armênia entre 95 e 55 a.C. pelo maior rei armênio, Tigran, o Grande e ainda da proximidade que existia com o Reino da Cilícia.

Muitos armênios do leste se refugiaram e lutaram ao lado do Império Russo e depois muitos até tentaram retornar à pátria-mãe na breve República Armênia de 1918 a 1920.

 

2) Qual seria o número mais correto de mortos no genocídio? Qual o tamanho da comunidade armênia no Brasil? Argentina, França e Líbano são alguns dos países que reconhecem o genocídio. Israel e EUA argumentam as relações com a Turquia para não reconhecer. E no Brasil?

Sobre o número é realmente muito contestado por diversas fontes. No entanto, há um consenso dos historiadores que tenha sido por volta de 1,5 milhão, número considerado por Eric Hobsbawn e adotado em diversas organizações como pelas Nações Unidas e Parlamento Europeu.

O Brasil não era um destino inicial dos refugiados. Quando não tinham a França e outros países com comunidades já estabelecidas, almejavam a América (EUA), e muitos acabavam chegando aqui por acaso, inclusive sem mesmo saber onde tinham aportado. A maioria desembarcou em Santos, mas também muitos entraram pelo Rio de Janeiro e pelo Sul do país.

Comunidades pequenas e famílias se estabeleceram em várias cidades do interior de São Paulo, como Jaú, São José do Rio Preto, Casa Branca, Catanduva e etc e no Mato Grosso (do governador Pedro Pedrossian, atriz Aracy Balabanian e geógrafo Armen Mamigonian, seu irmão materno), Rio, Ceará, Paraná, Rio Grande do Sul. A comunidade da cidade de São Paulo prevalece como a maior, mas em Osasco na região de Presidente Altino os armênios possuem uma forte presença, inclusive tendo um armênio como primeiro prefeito da cidade Hrant Sanazar.

Praticamente apenas São Paulo e Osasco têm comunidade estruturada mesmo, com alguma associação que congrega esses armênios. No Rio apesar de ter uma comunidade considerável, não possui igreja nem clube atualmente, no passado, reuniam-se em igrejas de outras denominações e tinham até um religioso ordenado para lá, clube chegou a existir um centro comunitário, mas atualmente não existe mais.

Os números da comunidade no Brasil são incertos, pois depende de como consideramos quem é armênio. Armênios imigrantes praticamente não temos muitos, tivemos apenas uma grande onda entre os anos 1920-1930 por aí e depois alguns outros que vieram após a Segunda Guerra Mundial de países como Síria, Líbano e Palestina. Estamos já na quarta (bisnetos) para quinta (tataranetos) geração de armênio-brasileiros. Por este motivo, muito da identidade se perdeu nessas gerações mais recentes, se considerarmos todos, provavelmente algo em torno de 80 a 100 mil no máximo. O número mais aceito, inclusive pelos órgãos oficiais como o Ministério das Relações Exteriores e do Governo Armênio  é de 40 a 50 mil no máximo.

Por que armênios costumam ter “ian” no sobrenome?

O ‘ian’ é um sufixo relativamente novo entre os armênios. Acredita-se que os armênios adotaram essa marca distintiva no século VI d.C. A Armênia encontrava-se sob domínio árabe. Nesse período os armênios sofriam com pesados tributos do califado e também estavam divididos entre árabes e os bizantinos. O descontentamento popular fez com que a nobreza armênia então assumisse a causa se rebelando contra os árabes.

 Em 705, o governador árabe Muhammad ibn Marwan convocou os príncipes armênios para uma reunião em Nakhichevan e quando todos estavam reunidos foram trancados em igrejas e queimados vivos. Os armênios então perderam quase toda classe dirigente e se viram perdidos em meio a subjugação estrangeira, em consequência disso teriam começado a adotar o sufixo -ian como traço identitário comum.

O ‘ian’ é uma particula que designa o genitivo singular em persa e tem a função de pertencimento/posse. Considerando que os sobrenomes armênios nem sempre possuem origem armênia e podem ser divididos em 4 categorias: derivados de topônimos, ofícios, características físicas ou apelidos e os patronímicos, temos respectivamente, por exemplo: Behesnilian ou Besnilian (da cidade de Besni, em armênio Behesni); Kardachian (do ofício que esculpe pedra: em armênio ??? /kar/ = pedra e a raiz ??? /dach/ = esculpir) e Boyadjian (do pintor, do turco boyac? /boyadjü); Topalian (de ser aleijado, do turco topal), Kevorkian (de Kevork, Jorge em armênio: ?????) e Nersessian (de Nerses, em armênio ??????).

Apesar de raros atualmente, existem ainda sobrenomes armênios de origem bem remotas e relacionados a antiguidade e nobreza armênia como os sufixados em -uni, -unts e -iants: Ardzuni (????????), Rchduni (???????); Pagunts (???????) e Krikoriants (??????????).

Sobre a ausência do -ian em alguns sobrenomes armênios pode ser justificado por duas razões principais: para esconder a identidade armênia por conta do genocídio e posteriormente pelo trauma, inclusive ainda negando a identidade e adotando sobrenomes estrangeiros, e também para adaptarem melhor aos países em que se estabeleceram, como por exemplo na Rússia, adotaram o -ov (Kasparov) e na própria Turquia ou tiraram ou trocaram pelo -o?lu, típico de sobrenomes turcos que possui o mesmo sentido do ian armênio (Sahakian – Sahako?lu).

Alguns casos famosos são como o de Charles Aznavour (Shahnour Vaghinagh Aznavourian), Andre Agassi (Agassian), Antônio Kandir (Kandirian), Hrant Dink (Dinkian). Leon Cakoff (Leon Chadarevian, adotou o pseudônimo durante a ditadura).

Por fim, existe atualmente a diferença entre -ian e -yan  que a grosso modo foi criado pela transliteração dos sobrenomes armênios após uma reforma ortográfica em 1922 conduzida na língua armênia oriental (falada na Armênia) que a ocidental (falada na maior parte da diáspora) não adotou. O ditongo ?? (?=e + ?=a e tem o som de /ia/ sendo o /i/ semivogal), antes comum as duas variantes do idioma, passou a ser escrito como ?? (?=y + ?=a) no oriental. Assim sendo, distingui-se, na maior parte das vezes, sobrenomes armênios em -yan como originários da Armênia e os -ian da diáspora.
Eventos da semana

Quarta-feira 23 de abril – Evento organizado pelas Lojas Maçônicas de judeus e armênios:
https://www.facebook.com/events/653442821395429/?ref=2&ref_dashboard_filter=upcoming

Quinta-feira 24 de abril – Manifestação em frente ao Consulado Turco em São Paulo:
https://www.facebook.com/events/240393319498386/?ref=2&ref_dashboard_filter=upcoming

Sexta-feira – Evento por Kessab com filme e debate no Clube Armênio:
https://www.facebook.com/events/1487490564797941/?ref=2&ref_dashboard_filter=upcoming

Domingo 27 de abril – Missa nas Igrejas Armênias de São Paulo (Evangélica, Católica e Apostólica) e procissão até o monumento do Genocídio Armênio localizado na Praça Armênia em São Paulo, na Estação Armênia do Metrô.
Segunda-feira 28 de abril – Ato Solene em Homenagem ao Povo Armênio

 Adendo do Sarkis – O Curso de Armênio na USP completou 50 anos em 2013 e desde sua fundação permanece sendo o único centro de estudos do gênero em toda América Latina. Atualmente um grande projeto de catalogação e preservação da memória armênia no Brasil está sendo conduzido pelo LEER em parceira com o curso: Armênios: genocídio, imigração e memória (nos mesmos moldes do já criado ArqShoah – www.arqshoah.com.br).

Esse trabalho visa então criar um Museu Virtual do Genocídio e Imigração, com documentos, entrevistas, fotografias, cartas, notícias e etc. a respeito da presença armênia no país.
Para a semana do 24 de abril, iremos realizar um cinedebate na USP com 4 filmes que tratam do Genocídio, cujo cartaz envio anexado ao e-mail juntamente com um folder do projeto (um pouco desatualizado por ter sido impresso há um ano atrás) e abaixo os links do curso de armênio e do LEER.

www.letrasorientais.fflch.usp.br/armenio (Site do Curso de Armênio: no menu do lado esquerdo poderá visualizar a produção acadêmica e breve histórico da Área).
www.usp.br/leer – Laboratório no qual o projeto está vinculado (os dados do projeto estão sendo inseridos pela atualização do site)”

 

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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