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Guia para entender a crise do lixo no Líbano

gustavochacra

23 de agosto de 2015 | 17h24

Afinal, o que está ocorrendo Líbano?

Protestos da população foram reprimidos com canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo no centro de Beirute. Dezenas de pessoas ficaram feridas

Por que os libaneses estão protestando?

O estopim foi a crise do lixo. No mês passado, houve um impasse envolvendo a coleta de lixo e este se acumulou nas ruas de Beirute. A situação melhorou na capital libanesa, mas muitos libaneses estão insatisfeitos com a atual administração pela falta de eletricidade e/ou água em certas áreas do país algumas horas do dia e pela corrupção.

Os manifestantes querem a queda do governo?

Alguns deles, sim, mas note que não se trata de um regime ditatorial, como nos vizinhos árabes. Não dá para comparar com os protestos na praça Tahrir, no Cairo. O Líbano é uma nação democrática e o pedido para a queda do governo não seria diferente do que ocorre no Brasil nas manifestações contra Dilma, por exemplo. Há uma enorme insatisfação com a classe política, que normalmente está mais preocupada com interesses sectários do que com interesses da sociedade libanesa. O premiê, Tammam Salam, defendeu os manifestantes e criticou a postura da polícia. Ele também não descarta renunciar.

Mas o governo libanês não é de união nacional?

Sim, o atual governo engloba membros das duas principais coalizões política – a 8 de Março e a 14 de Março. A 8 de Março, aliada do Irã e de Assad, é formada pelos principais grupos xiitas (Hezbollah e AMAL), o maior grupo cristão (Movimento Patriótico Livre, de Michel Aoun) e outras facções cristãs menores, como a Marada. A 14 de Março, aliada da Arábia Saudita, é formada pelos principais grupos sunitas (Future) e alguns grupos cristãos (Forças Libanesas e Falange). Os drusos se mantêm relativamente neutros. Resumindo, a 8 de Março tem os xiitas e a maioria dos cristãos. A 14 de Março tem os sunitas e a outra parcela de cristãos. O premiê, Tammam Salam, é sunita, como costume no país, e integra a 14 de Março. O presidente do Parlamento, Nabi Berri, é xiita, como costume no país, e integra a AMAL, da 8 de Março.

Não há presidente no Líbano?

O Líbano está há mais de um ano sem presidente, que, como costume no país, tem de ter cristão maronita. Os dois principais candidatos – Michel Aoun, da 8 de Março, e Samir Geagea, da 14 de Março, não conseguem maioria no Parlamento, porque o líder druso Walid Jumblat, com seu bloco independente, mantém neutralidade. Nenhum outro candidato de consenso emergiu.

 E o Parlamento não se reúne?

Há meses o Parlamento não se reúne, impedindo na prática que o governo funcione. Neste momento, praticamente não há Estado no Líbano – o país é um dos mais libertários do mundo. Por este motivo, uma série de decisões relacionadas à administração não podem ter tomadas, paralisando setores do país.

O que ocorrerá se o premiê renunciar?

Caso o premiê renuncie, ele permanece no cargo como primeiro-ministro interino. Ironicamente, um novo premiê precisaria ser indicado pelo presidente. Como não há presidente, não teria como haver uma escolha, a não ser que o Parlamento eleja um. Como o Parlamento não se reúne, não tem como eleger presidente. Entendeu?

Como fica a questão dos refugiados?

O Líbano, com uma população de 4,5 milhão de pessoas, abriga 1,5 milhão de refugiados, sendo cerca de 1 milhão da Síria e 500 mil palestinos. Eles são os que mais sofrem com esta crise atual.

 E a Guerra da Síria?

O Líbano é extremamente afetado pela Guerra da Síria por uma série de motivos. Primeiro, pelos refugiados. Em segundo lugar, pelo risco de contaminação da violência. Terceiro, pela divisão do país sobre qual lado apoiar – um lado acha importante a intervenção do Hezbollah na guerra pois impede a entrada do ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh) e da Al Qaeda no país. O outro, condena a intervenção, dizendo que o Líbano deveria ficar de fora do conflito. E quarto, economicamente, pelo aumento da dificuldade de exportar produtos libaneses para o Golfo Pérsico através da Síria, como sempre ocorreu. Turistas sauditas e de outros países do Golfo também costumavam viajar através do território sírio para chegar ao Líbano. Sem esta alternativa, o turismo diminuiu. Estrangeiros de outras partes do mundo também ficam receosos com a situação de instabilidade e temem visitar Beirute.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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