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Guia para entender a decapitação de 21 cristãos pelo ISIS na Líbia

gustavochacra

15 de fevereiro de 2015 | 20h42

A organização terrorista ISIS, também conhecida como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, decapitou 21 cristãos coptas egípcios na Líbia. Eles foram mortos quando estavam no país a trabalho. Abaixo, algumas perguntas e respostas para entender o ataque – parte das informações se baseiam em recente post no qual comentei sobre o avanço do ISIS na Líbia (falei do tema também no Globo News Em Pauta em novembro).

Desde quando há ISIS na Líbia?

O grupo tem crescido nos últimos meses no país, dominando porções do território líbio ou atuando em coordenação com algumas das várias milícias extremistas com base no país e armadas pelo Ocidente para combater o regime de Muamar Kadafi. Desde outubro, dominam a cidade de Darna.

 O governo da Líbia não fez nada?

Hoje a Líbia tem dois governos. Ambos simbólicos. O que é reconhecido pelo Ocidente se localiza em Tabruq, uma cidade próxima ao Egito e a cerca de mil quilômetros de Trípoli, a capital. Isto é, o governo e o Parlamento da Líbia que desfrutam de legitimidade internacional não controlam a capital e nem a segunda cidade, Benghasi. Estas estão nas mãos de diferentes grupos extremistas islâmicos que combatem as tropas laicas do general Haftar e outras milícias.

Não há Exército na Líbia?

A OTAN destruiu as Forças Armadas da Líbia quando fez a intervenção para derrotar Kadafi.  Não há um Exército que controle todo o país. O que existe são federações de milícias, sendo muitas delas ligadas à Al Qaeda e armadas no passado pelo Ocidente (isso mesmo). No último mês, militantes líbios integrantes do ISIS passaram a dominar a cidade de Darna.

E o governo do Egito?

O regime de Sissi tentou, sem sucesso, negociar a libertação

 Os EUA poderiam ajudar?

Os EUA, hoje, não possuem diplomatas na Líbia. O embaixador foi morto em atentado terrorista. Os demais foram retirados posteriormente quando o governo perdeu o controle da capital, Trípoli. Os americanos tampouco exercem qualquer influência na área de segurança. Embora sejam os responsáveis diretos pela derrubada de Kadafi, os EUA perderam completamente o controle da Líbia e hoje enfrentam inimigos bem piores do que o então ditador – que havia abdicado do terrorismo e das suas armas de destruição em massa, sendo doador de campanha para políticos franceses, italianos e britânicos.

A Líbia está em Guerra civil?

Sim, está. A intervenção da OTAN  comandada pelos EUA e pela França, com a ajuda de alguns países árabes, levou à queda do regime de Muamar Kadafi e à pulverização do país. Não existe, na prática, um Estado líbio. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas em um conflito esquecido pelo Ocidente – que foi um dos principais causadores, no caso, diferentemente do que ocorre na Síria

O ISIS está se expandindo para outros países?

Sim, embora venha perdendo um pouco de força no Iraque e na Síria, o ISIS tem ganho força na Líbia e no Afeganistão, além de ter células em outros países. Embora tenha tentado, não conseguiu, ainda, penetrar no Líbano, onde enfrenta o Hezbollah e o Exército, e na Jordânia.

Alguma força externa luta contra o ISIS na Líbia?

Não. O grupo enfrenta apenas alguma resistência local.

 Quem são os principais grupos e países na luta contra o ISIS no mundo?

Quem mais luta contra o ISIS no mundo é uma coalizão liderada pelo Irã, com o apoio do regime de Bashar al Assad na Síria, do Hezbollah e de milícias xiitas iraquianas, em coordenação com o governo do Iraque os guerreiros Pesh Merga do Curdistão. A outra coalizão, mais focada em ataques aéreos do que terrestres, tem o comando dos EUA, com o apoio de nações ocidentais como a França e árabes como a Jordânia e a Arábia Saudita. Também atua em coordenação com o governo do Iraque os Pesh Merga do Curdistão.

 O mundo islâmico não faz nada para combater o ISIS?

Como escrito acima, o Irã, Hezbollah, Iraque, curdos, Jordânia e Arábia Saudita são muçulmanos e estão na vanguarda da luta contra o ISIS, ao lado de Assad, que tem um regime laico apoiado por cristãos, muçulmanos alauítas e muçulmanos sunitas seculares e druzos, e das Forças Armadas do Líbano, comandada por um cristão e com membros cristãos, sunitas, xiitas e druzos. Dezenas de milhares de muçulmanos lutam contra o ISIS todos os dias na Síria e no Iraque e milhares são mortos.

Quem são os cristãos coptas?

São os cristãos egípcios e representam 10% da população do país. Diferentemente dos cristãos libaneses, que comandam a política do Líbano, e dos cristãos sírios, que são elite em Damasco, os cristãos coptas do Egito historicamente sempre compuseram as camadas mais pobres da sociedade.

Os cristãos são perseguidos em todo o mundo árabe?

Não é em todo o mundo árabe que há cristãos. No Líbano, os cristãos são cerca de 40% da população do país e detêm os cargos de presidente, chefe das Forças Armadas e metade do Parlamento. Na Síria, onde são 10% do total, os sírios sempre foram bem integrados, formando parte da elite, e costumam o apoiar o regime de Bashar al Assad, que os protege. São perseguidos apenas nas áreas sob controle da oposição, hoje comandada pelo ISIS e pela Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria). Até recentemente, o chefe das Forças Armadas da Síria era cristãos e muitos generais de Assad são cristãos. Na Jordânia, vivem bem, sem perseguição. Na Palestina, sempre estiveram na vanguarda da luta contra Israel e pela independência palestina. Hoje vivem bem na Cisjordânia – a prefeita de Ramallah, sede da Autoridade Palestina, e a de Belém, são cristãos. Em Gaza, enfrentam problemas com o Hamas. No Iraque, viviam bem na época de Saddam Hussein, quando tinham o vice-presidente, Tariq Aziz. Mas o cenário piorou com a invasão americana e centenas de milhares fugiram para a Síria, onde foram recebidos por Assad, que lhes concedeu todos os direitos. Hoje os cristãos iraquianos são perseguidos pelo ISIS nas áreas controladas pelo grupo.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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