As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Guia para entender a luta da Al Qaeda no Iraque, Síria e Líbano

gustavochacra

06 de janeiro de 2014 | 13h46

Parte da Síria e do Iraque  estão controladas por um grupo denominado ISIL, uma organização ligada à Al Qaeda. Abaixo, tento explicar o que é o ISIL

O que quer dizer ISIL – Estado Islâmico do Iraque e do Levante. Em alguns casos, no lugar de Levante, usam a palavra Síria. Em árabe, é Chams, que é uma forma de se referir à Síria e Damasco e quer dizer Levante

Seus inimigos – Irã, regime de Assad, Hezbollah, governo do Iraque, rebeldes sírios moderados e Estados Unidos – isso mesmo, são inimigos de americanos, iranianos e do Hezbollah ao mesmo tempo

Seus aliados – Membros de monarquias no Golfo Pérsico  e algumas facções sunitas no Líbano que, ironicamente, são aliadas dos EUA

Qual o objetivo do ISIL?

Estabelecer um Estado radical islâmico sunita, nos moldes do Taleban, no Iraque, Síria e Líbano, que vem a ser justamente três dos países árabes mais liberais em questões religiosas, com forte presença de xiitas (Iraque e Líbano), cristãos (Líbano, Síria e Iraque), alauítas (Síria) e drusos (Líbano e Síria)

Quem são seus membros?

A maior parte dos membros do ISIL vem de outros países e não são nativos da Síria, Iraque e Líbano. Há muitos líbios, veteranos da guerra contra Kadafi, e tchetchenos, veteranos da Guerra da Tchetchênia. Há ainda muitos radicais islâmicos nascidos e criados na Europa, além de sauditas e iemenitas.

Afinal, o que é o ISIL?

É uma organização radical sunita que surgiu durante a ocupação americana do Iraque – inicialmente tinha o nome de Al Qaeda no Iraque. Antes dos EUA entrarem no país, a Al Qaeda era praticamente inexistente no Iraque pois era combatida com dureza por Saddam Hussein. Com a entrada dos EUA e o caos no país, passou a ganhar força especialmente em 2006 e 2007. Com o surge das tropas americanas e a política de mesadas para líderes tribais sunitas não ligados à Al Qaeda, o governo de George W. Bush obteve sucesso em combater a organização.

Com a retirada das tropas durante o governo de Barack Obama e a insistência do premiê Nouri al Maliki em não incluir facções sunitas moderadas em sua coalizão de governo, dominada por xiitas laicos, a Al Qaeda no Iraque (futuro ISIL) começou a ganhar apoio de sunitas menos radicais. Mas a Guerra da Síria foi determinante para o sucesso da organização.

Bashar al Assad, assim como Saddam Hussein no passado, lidera um regime laico que combate o extremismo islâmico. Além disso, é aliado do Irã, do Hezbollah e do governo de Nouri al Maliki, todos xiitas. Era o inimigo perfeito para o ISIL, um grupo radical sunita que odeia figuras árabes laicas, como Assad, e xiitas, como iranianos e os membros do Hezbollah. No conflito, conseguiu armas de doadores de países do Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita e o Qatar.

Se tiver de lembrar de algo, marque que o ISIL e a Al Qaeda, lembre que são sunitas radicais e inimigos de xiitas, como Irã, Hezbollah e governo do Iraque, e de laicos, como Assad e, no passado, Saddam – também sunita, mas zero religioso.

 Qual a atuação do grupo na Síria?

Tem como principal área de domínio o leste do país e áreas do norte. São regiões que não estão mais nas mãos do governo. Em algumas cidades, massacram cristãos e alauítas, normalmente associados a Bashar al Assad. O mesmo ocorre com qualquer simpatizante do regime, mesmo se for sunita.

Nos últimos tempos, porém, passou a alvejar outros rebeldes. Primeiro, foram os supostamente moderados do Exército Livre da Síria, hoje praticamente irrelevante no conflito. Depois, começaram a bater de frente com a Frente Nusrah, também ligada à Al Qaeda, e outros grupos jihadistas radicais sem ligação com a rede terrorista de Bin Laden, como o Fronte Islâmico.

Atualmente, os combates são mais entre os rebeldes do que contra Assad, que controla ainda os principais centros urbanos da Síria, com a exceção de partes de Aleppo. A popularidade do ISIL é mínima mesmo nas zonas controladas por eles. Muitos sírios anti-Assad passaram a preferir o regime do que o ISIL

Qual a atuação do grupo no Iraque?

Depois de terem sido duramente combatidos durante o surge de Bush, voltaram a se fortalecer por três motivos – Guerra da Síria, retirada dos EUA e a resistência do governo de Nouri al Maliki em incluir sunitas. Nas últimas semanas, assumiram o controle de partes de Fallujah e Ramadi, na Província de Ambar. Estas cidades não são tão distantes de Bagdá, mas o ISIL ainda não ameaça a capital iraquiana, bem protegida pelas forças do governo, que receberam mais armamentos dos EUA e ainda tem o apoio do Irã. O ISIL também é responsável por dezenas de atentados terroristas contra xiitas e cristãos no Iraque

Qual a atuação do grupo no Líbano?

Foi responsável por pelo menos dois ataques terroristas que tiveram como alvo xiitas. Primeiro foi a embaixada do Irã e, posteriormente, um reduto do Hezbollah em Beirute. Mas não tem presença como milícia ainda, embora haja algumas células em Trípoli e Sidon

Qual a posição dos EUA?

Os EUA consideram o ISIL terrorista. No Iraque, apoia formalmente o governo de Nouri al Maliki para combater a organização. Na Síria, embora retoricamente seja contra Assad, os americanos preferem o regime a esta organização terroristas. O ideal, para Washington, seria que facções mais moderadas da oposição síria se fortalecessem. Mas as únicas que conseguem bater de frente com o ISIL são a Frente Nusrah, também afiliada à Al Qaeda, e o Fronte Islâmica, não integrante da rede terrorista, mas tão radical quanto, embora sem agenda externa contra o Ocidente

Qual a posição do Irã?

Considera o ISIL inimigo mortal e ajuda os regimes de Assad, o governo de Maliki e o Hezbollah a combater esta organização

Qual a posição da Arábia Saudita?

Oficialmente, o governo saudita diz manter distância do ISIL. Mas a organização age justamente a favor de interesses sauditas no Líbano, Síria e Iraque ao se contrapor ao Irã. No Líbano, comete ataques contra o Hezbollah, rival da facção 14 de Março, majoritariamente sunita, na política libanesa – os cristãos libaneses se dividem entre os aliados do Hezbollah e os aliados dos sunitas. Na Síria, enfrentam o regime de Assad, um aliado do Irã e inimigo de Riad. No Iraque, também batem de frente com o governo de Maliki, que não é bem visto pelos sauditas por excluir a minoria sunita do Iraque, uma nação majoritariamente xiita

Qual a posição de Israel?

Israel observa com atenção e preocupação o crescimento do ISIL. Na Síria, embora seja inimigo de Assad, prefere vê-lo no poder, especialmente enfraquecido, do que ter de lidar com uma organização ligada à Al Qaeda. No Líbano, até não considera ruim ver a emergência de um rival interno para o Hezbollah. Mas sabe que, no passado, ao combater a OLP, acabou herdando o Hezbollah. Não quer, desta vez, ver o Hezbollah ser substituído por uma organização ligada a Al Qaeda e completamente irracional. O Iraque não tem tanta importância para os israelenses e deixam a questão para os americanos

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antisemitas e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus. Escrevam para mim no gugachacra at outlook.com. Leiam também o blog do Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.