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Guia para entender a Guerra da Síria depois do envolvimento dos EUA

gustavochacra

14 Junho 2013 | 10h44

A DECISÃO DE OBAMA

Escrevi ontem aqui sobre os motivos pelos quais uma intervenção americana na Síria é arriscada. O próprio governo de Barack Obama concorda ser extremamente complicado e se manteve distante da guerra civil ao longo dos últimos dois anos . Agora, devido à pressão de figuras como o senador John McCain e de membros de seu Departamento de Estado, decidiu intervir.

A história das armas químicas, embora tenha servido de argumento, não foi o principal motivo para a mudança de postura de Obama. Pesou mais o avanço recente do regime de Bashar al Assad, que conta com o apoio da Rússia, Irã, Iraque e do grupo libanês Hezbollah.

COMO ESTÁ ASSAD 

Neste momento, Assad controla todo o território a partir da fronteira com a Jordânia, passando pela capital Damasco, cruzando pelas Províncias de Homs e Hama e chegando à Costa Mediterrânea. Existe uma variação da força do regime em cada uma destas áreas.

A COSTA MEDITERRANEA

Nas cidades litorâneas de Tartus e Latakia, apenas uma pessoa sem o menor conhecimento de Síria pode imaginar que o regime corra algum risco. O controle e o apoio a Assad é total  e a vida nestas cidades é tranquila, como se fosse um verão comum. Mesmo que Damasco venha a cair nas mãos dos opositores, a tendência seria de estas cidades e as áreas mediterrâneas se transformarem em um novo país, uma espécie de Síria para os alauítas, cristãos e sunitas laicos da classe média das grandes cidades.

DAMASCO

Damasco ainda é integralmente do regime. Os rebeldes conseguem realizar operações terroristas ocasionais, como vimos nesta semana. Normalmente, são levadas adiante pela Frente Nusrah, ligada à Al Qarda, e mais poderosa facção militar da oposição. Alguns subúrbios da capital ainda têm a presença de rebeldes, mas todos voltaram para as mãos do regime.

HOMS E HAMA

Na Província de Homs, o regime voltou a controlar Qusayr e tem nas mãos Homs. Mas os rebeldes ainda atuam em algumas áreas do interior. O cenário é parecido na Província de Hama.

 ALEPPO

O objetivo do regime, neste momento, é controlar totalmente as Províncias de Homs e Hama, especialmente nas áreas próximas à estrada que liga Damasco a Aleppo. Esta metrópole, que é o centro econômico e maior cidade da Síria, está dividida entre os rebeldes e o regime. Com os recentes avanços e o apoio do Hezbollah, Assad tentará recuperar as regiões de Aleppo nas mãos dos rebeldes em uma batalha que deve ser a mais sangrenta da guerra civil.

FRONTEIRAS COM TURQUIA E IRAQUE

A oposição controla atualmente porções do território nas fronteiras com a Turquia e o Iraque. Das 14 capitais de Província, apenas uma está nas mãos dos rebeldes. Vale lembrar que muitas destas áreas são administradas por curdos, que não têm ambição de derrubar Assad. Querem ter apenas autonomia.

COMO ESTÁ A OPOSIÇÃO

Hoje existem mais de mil grupos armados da oposição, com diferentes agendas e patrocinadores. Os ligados à Irmandade Muçulmana são apoiados pelo Qatar. Facções salafistas e seculares contam com o suporte da Arábia Saudita e de figuras independentes do Golfo Pérsico. Os armamentos costumam ser no máximo civis.

FRENTE NUSRAH

O grupo mais forte da oposição é a Frente Nusrah, ligada à Al Qaeda e considerada terrorista até pelos EUA. Muitos de seus membros não são sírios. A vantagem desta organização é uso de atentados terroristas suicidas, o que facilita a sua penetração em áreas do regime.

GENERAL IDRIS

O general Salim Idris é comandante do Exército Livre da Síria, que existe apenas no nome. Na prática, é uma colcha de retalhos de diferentes organizações. Este militar, porém, desfruta de muito mais respeito dos rebeldes do que as liderança sírias políticas no exílio, que são irrelevantes para quem está no campo de batalha. Ele também não é visto com tanto temor pelos simpatizantes do regime por não ser uma figura extremista religiosa, como outros membros da oposição.

AJUDA DOS EUA

Os EUA, ontem, anunciaram que devem enviar armamentos aos rebeldes. Esperem arsenais antitanques, mas não antiaéreos. Uma zona de exclusão aérea, neste momento, está descartada. É quase impossível que o governo Obama decida enviar soldados.

Os esforços americanos se concentrarão no general Idris. O militar será responsável por receber e distribuir a ajuda. Desta forma, os EUA tentarão fortalecer uma figura moderada em detrimento das alas extremistas da oposição.

Em um primeiro momento, esta ação corre o risco de gerar um conflito intra-oposição, entre os aliados de Idris, pró-EUA e mais laicos, contra a Frente Nusrah, organizações salafistas e ligadas à Irmandade Muçulmana.

AJUDA DO IRÃ, IRAQUE, RÚSSIA E HEZBOLLAH

Contra o regime, os rebeldes continuarão enfrentando enormes dificuldades. Assad possui armamentos e militares leais. Notem como quase não ocorrem mais deserções. Quem ficou ao lado do regime demonstra uma enorme lealdade. O governo também possui as milícias cristãs, alauítas e xiitas aliadas, conhecidas como shabiha. O Hezbollah, mais poderosa guerrilha do mundo, enviou as suas tropas de elite para o conflito. O Irã ajuda logisticamente. O Iraque envia guerrilheiros para ajudar. A Rússia intensificará o fornecimento de armamentos.

CENÁRIOS PARA O FUTURO

Diante deste cenário, a tendência no médio e longo prazo será uma divisão do país na prática, com o regime consolidando as áreas sob seu controle, mas evitando se envolver nas áreas da oposição. Os rebeldes fariam o inverso.

Isso poderia abrir as portas para uma tentativa de acordo diplomático. Os dois lados aceitariam a realização de eleições, com Assad e Idris, além de outras figuras menos expressivas, concorrendo. Quer dizer, este seria o cenário otimista. O cenário pessimista seria a continuação do conflito por anos, com o aumento de massacres. Eu avalio que a segunda possibilidade é a mais provável. 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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