As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Guia para entender a Guerra do Iraque enquanto você assiste à Copa do Mundo

gustavochacra

16 de junho de 2014 | 11h31

A Guerra do Iraque não tinha acabado?

Não, apenas foi reduzida a cobertura internacional depois da retirada das forças americanas em 2011. O conflito continuou, embora em baixa intensidade. Mesmo assim, atentados eram constantes. Bagdá seguia como a capital mais violenta do Oriente Médio. O número de vítimas fatais supera o de Damasco, capital da Síria, apesar de ser inferior ao de Aleppo, centro financeiro sírio. Importante frisar que a Guerra do Iraque é a mais violenta do século 21, superando a da Síria, com centenas de milhares de mortos, incluindo 4 mil americanos em combate – um número superior se suicidou depois de retornar aos EUA normalmente com sintomas de stress pós-traumático.

Dá para fazer um resumo do conflito desde 2003? Explique em 7 tópicos

1) Dá para ir até antes disso. Saddam Hussein, um ditador laico de origem sunita, era aliado dos Estados Unidos nos anos 1980, quando entrou em guerra contra o Irã. Seu regime era apoiado acima de tudo pelos árabes sunitas e pelos cristãos iraquianos. Seus maiores adversários internos eram os árabes xiitas e os curdos sunitas.

2) Depois da Guerra Irã-Iraque, em 1990, ele decidiu se aventurar e ocupar o Kuwait, um gigante do petróleo. Os EUA, naquele momento, romperam com Saddam para defender seu aliado do Golfo. Em uma ampla coalizão internacional, os americanos expulsaram o regime iraquiano do Kuwait. Mas não impediram os massacres de Saddam contra xiitas e curdos dentro de seu próprio país

3) Ainda assim, nos anos 1990, Saddam ficou neutralizado por sanções econômicas e zonas de exclusão aérea. Seu regime estava enfraquecido e servia mais como um tampão para frear a expansão geopolítica do Irã, seu maior inimigo, para o Oriente Médio.

4) Depois do 11 de Setembro e após o sucesso na derrubada do Taleban no Afeganistão, a administração Bush e alguns aliados, como Blair na Grã Bretanha, decidiram invadir o Iraque. O argumento inicial era de que Saddam seria aliado da Al Qaeda, mas este não se sustentou porque todos sabiam da enorme inimizade entre o ditador iraquiano e Bin Laden. Depois, disseram que eram para encontrar armas de destruição em massa. Estas nunca foram encontradas. Por último, veio o argumento de democratizar o Iraque, o que não foi totalmente alcançado

5) A primeira fase da Guerra do Iraque, até 2006, foi marcada por erros americanos, como o desmantelamento do Exército e da burocracia de Estado do Iraque. Precisaram recriar todo o Estado. A segunda, a partir de 2006 e até 2008, foi marcada pela violência sectária entre milícias radicais sunitas e xiitas. Para conter o conflito, Bush levou adiante o bem sucedido surge, ampliando o número de tropas americanas e pagando mesadas a líderes tribais sunitas em troca do fim do apoio a grupos ligados à Al Qaeda.

6) Por último, veio a fase de Obama, que iniciou o processo de retirada das tropas. A ideia inicial era deixar algumas forças remanescentes, mas não houve acordo entre o governo de Nuri Al Maliki em Bagdá e  Washington. No fim, os EUA retiraram todas as suas forças.

Sunitas, xiitas, curdos, cristãos… Como é esta divisão sectária do Iraque?

 O Iraque, assim como o Líbano, Síria e Bahrain, é uma nação com diferentes religiões e etnias. Os árabes xiitas são majoritários e representam cerca de 2 terços da população. Eles se concentram especialmente no sul do país. Os sunitas seriam um terço do total, divididos entre os árabes sunitas (mais ao centro) e os curdos sunitas (no norte). Os curdos pesam mais na sua identidade a questão étnica (curda) do que a religiosa (sunita). E alguns deles seguem a religião Yazidi, não a muçulmana sunita.

Além de sunitas, xiitas e curdos, há também os cristãos, chamados de caldeus, que falam uma língua derivada do aramaico e vivem na região desde a época de Cristo praticamente. Até a época de Saddam quando eram protegidos pelo ditador e possuíam o número dois do regime, Tariq Aziz, somavam 1 milhão de habitantes. Com a invasão americana e o início das perseguições, parte deles fugiu acima de tudo para a Síria, onde são protegidos por Assad – isso mesmo, Saddam e Assad protegiam cristãos. Hoje, totalizam cerca de 500 mil no Iraque. E, antes que me esqueça, o Iraque possuíam uma proeminente população judaica que chegou a ser a maior pluralidade de Bagdá, uma cidade multireligiosa, no século 19. Mas foram expulsos ou perseguidos na segunda metade do século 20, imigrando para Israel e o Ocidente

Complicado, coloque em números, por favor

Xiitas árabes – 64%

Árabes sunitas – 16%

Curdos (sunitas e Yazidi) – 16%

Cristãos Caldeus – 2%

Judeus – expulsos

 Como funciona o governo do Iraque?

Existem eleições nas quais todos os iraquianos votam para o Parlamento. Devido a uma maior população xiita, naturalmente os xiitas levam vantagem. Portanto os xiitas controlam o governo e o premiê, há quase uma década, é Nuri Al Maliki. Facções sunitas se sentem marginalizadas. Os curdos possuem o cargo de presidente, mas este tem caráter mais simbólico. O importante para os curdos é ter a região do Curdistão autônoma no norte

Rapidamente, o que é este Curdistão?

É uma região autônoma no norte do Iraque, controlada pelos curdos. São praticamente independentes, possuindo suas forças armadas, os peshmerga. Levam adiante uma política externa e econômica independente de Bagdá. São ricos em petróleo e sua capital, Erbil, é estável.

De novo, dá para fazer um esquema didático destas divisões?

Xiitas Árabes – Controlam o governo

Sunitas Árabes – Sentem-se pouco representados pelo governo central em Bagdá

Curdos (sunitas e yazidi) – Mais preocupados com a autonomia do Curdistão

Cristãos Caldeus – Fogem de perseguições. Antes, para a Síria. Hoje, para o Curdistão

De quem o governo do Iraque é aliado?

EUA – Concedem apoio militar e as Forças Armadas do Iraque foram formadas e treinadas pelos americanos

Irã – O regime de Teerã vê em Maliki, um xiita, embora não religioso, um importante aliado no mundo árabe (Irã é persa), onde os sunitas controlam todos os países, menos o Líbano (dividido entre xiitas, cristãos, sunitas e drusos) e Síria (controlada por um regime laico com apoio de alauítas, cristãos, drusos e sunitas moderados)

Síria – Assad é aliado de Maliki pois os dois possuem inimigos em comum (Al Qaeda e ISIS) e o Irã como aliado comum – a diferença é que o governo em Bagdá é parceiro de Washington e o de Damasco, adversário

Quem são os inimigos do governo do Iraque?

Arábia Saudita e países do Golfo Avaliam que os sunitas, religião majoritária nestas nações, deveriam ser mais representados

Grupos radicais sunitas como a Al Qaeda e, acima de tudo, o ISIS – estes, porém, não são apoiados pelos Estados nacionais do Golfo, embora figuras e centros de poder nestas nações, como a Arábia Saudita, possuam vínculos com estes grupos

 Escuto falar deste ISIS o tempo todo. O que é este grupo?

O ISIS é uma organização ultra radical sunita. São tão extremistas que até a Al Qaeda os considera radicais. Nasceram como aliados de Bin Laden no Iraque com o nome de ISI. O auge da organização foi em 2006. Nesta época, contavam com apoio de parte da população sunita contra o governo controlado por xiitas e apoiado por EUA e Irã. Com o surge (aumento de tropas americanas e pagamento de mesadas a líderes tribais sunitas), o ISI se enfraqueceu. Os líderes tribais deixaram de apoia-lo em troca do dinheiro americano e as tropas dos EUA derrotaram o grupo militarmente.

A Guerra da Síria, porém, serviu para o ISIS se recompor. O grupo é hoje o maior adversário de Assad no conflito. Conseguiram dominar parte do interior do país na fronteira com o Iraque, onde instituíram um Estado ultra radical (mais do que o Taleban) que crucifica xiitas, alauítas, cristãos e sunitas considerados não religiosos. O radicalismo assustou até a Al Qaeda e os dois grupos romperam – em parte, porque o ISIS não quis respeitar a Frente Nusrah, considerada pela liderança da Al Qaeda como sua franquia na Síria. A Frente Nusrah é o segundo mais importante grupo rebelde da Síria.

Certo, já sabemos que o governo do Iraque é aliado dos EUA e do Irã e controlado por xiitas. Também sabemos que o ISIS é mais radical do que Al Qaeda e controla parte da Síria, onde luta contra Assad. Mas e o novo conflito no Iraque, explique?

O ISIS, a partir de sua base na Síria e com a experiência na luta contra Assad, decidiu voltar a agir dentro do Iraque, onde não há mais presença de tropas americanas e as mesadas para os líderes tribais acabaram – e eles voltaram a direcionar sua insatisfação para Bagdá. Ex-membros do regime de Saddam, embora sejam sunitas não-religiosas, são aliados de “ocasião” do ISIS. Meses atrás, o ISIS tomou a cidade de Falujah. Na semana passada, em uma grande vitória, conseguiu em poucos dias conquistar Mosul, a segunda maior cidade iraquiana depois de Bagdá. Na prática, possuem hoje um Estado ultra radical que se estende de partes da Síria a partes do Iraque, na fronteira dos dois países. Na prática, é literalmente o Estado Islâmico do Iraque e da Síria que quer dizer ISIS na sigla em inglês. Para complicar, eles estão a caminho de Bagdá

 O Exército do Iraque não fez nada para conter o ISIS?

O problema é que muitos sunitas do Exército com base em Mosul optaram por desertar por medo ou por não quererem defender um governo controlado por xiitas.

 Quais as alternativas para o governo do Iraque?

O ISIS não conseguirá chegar facilmente a Bagdá por quatro principais motivos 1) As Forças Armadas na capital são mais bem armadas; 2) Há o apoio americano e iraniano 3) Milícias xiitas ajudarão na defesa 4) Há pouco apoio ao ISIS mesmo entre a população sunita de Bagdá

 O que os EUA podem fazer?

Oficialmente, Washington defende que Maliki forme um governo com representação de todos os setores sectários. Paralelamente, os EUA podem optar por bombardeios aéreos ou de Drones contra alvos do ISIS a caminho de Bagdá e também na fronteira com a Síria. O secretário de Estado, John Kerry, não descarta dialogar com o Irã para levar adiante uma ação conjunta dos dois países contra o ISIS. Um problema para os americanos é que parte do ISIS está no interior da Síria. Se agir contra o grupo dentro do território sírio, os EUA podem ser vistos como defensores de Assad que, no final das contas, é o maior adversário do ISIS

Qual o maior risco do ISIS para o mundo, se não contarmos o Iraque e a Síria?

Sem dúvida, o regime de Assad e o de Maliki são os mais ameaçados pelo ISIS. Mas isso se levarmos em conta apenas o âmbito local. O ISIS, com cerca de 10 mil membros, possui integrantes de diversas nações ocidentais, incluindo EUA, França e Grã Bretanha. Muitos deles podem voltar a seus países no futuro e cometer atentados terroristas. Lembrem-se que esta é uma organização extremamente bem treinada, bem armada e tão ou mais radical do que a Al Qaeda.

 Você tem mais perguntas?

Se sim, publique no meu Facebook (Guga Chacra, aberto a seguidores) e Twitter (@gugachacra). Não sei como funcionam os comentários aqui no blog

 

Não sei como faz para publicar comentários. Portanto pediria que comentem no meu Facebook (Guga Chacra)  e no Twitter (@gugachacra) , aberto para seguidores

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus. Escrevam para mim no gugachacra at outlook.com. Leiam também o blog do Ariel Palacios