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Guia para entender a lei anti-refugiados e anti-imigrante de Trump

gustavochacra

28 Janeiro 2017 | 14h32

A decisão de Donald Trump de impedir por 3 meses a entrada de cidadãos de sete países (Irã, Iraque, Síria, Yemen, Somália, Sudão e Líbia) e o bloqueio por 120 dias de refugiados de todo o mundo e indefinidamente os da Síria não tem muita lógica para combater o terrorismo. Mais grave, coloca em risco seres humanos que fogem de guerras e ditaduras.

Por que Trump escolheu estes sete países? Por que cidadãos destes países cometeram atentados nos EUA?

Não, pois cidadãos destes países não cometeram atentados terroristas nos EUA. No 11 de Setembro, 15 dos 19 terroristas eram sauditas, um era libanês, dois eram egípcios e um era dos Emirados Árabes. Nenhum destes países está incluído na lista. No atentado da maratona de Boston, os dois terroristas eram de regiões da ex-URSS. Tampouco estão incluídas na lista. Tanto em Orlando como em San Bernardino os terroristas eram cidadãos americanos com origem paquistanesa. Paquistão não está na lista e ambos cresceram nos EUA – o de Orlando nasceu no Queens, assim como Trump.

Qual a lógica então de bloquear cidadãos destes países? É por que eles têm maiorias muçulmanas?

Sim e não. Todos de fato possuem maioria muçulmana. Mas o maior país muçulmano do mundo, a Indonésia, não está incluída. Tampouco o mais extremista – a Arábia Saudita. Não é um bloqueio contra muçulmanos, mas contra cidadãos de 7 países. Cristãos sírios, judeus iranianos e ateus líbios também não podem vir aos EUA.

Então é por que estes países são inimigos dos EUA?

Sim e Não. O Iraque é o maior aliado dos EUA na guerra contra o ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh). O governo da Somália tampouco é adversário dos EUA. O Yemen, em guerra civil, tem um governo aliado e um governo de facto inimigo.  A Líbia é mais ou menos a mesma coisa. A Síria, o Sudão e o Irã podem ser classificados como inimigos. Mas isso não explica a inclusão do Iraque e a ausência da Coreia do Norte.

Então é por que nestes países ocorrem atentados terroristas?

Sim e não. De fato, há atentados terroristas em quase todos os estes países (não há no Sudão que eu me lembre). Mas isso não explica o motivo de outras nações, como França, Israel, Bélgica, Canadá, Egito, Líbano, Nigéria, Paquistão e Afeganistão, entre dezenas de outros, não estarem incluídos. Afinal, ocorreram atentados terroristas em todos estes países – e, não podemos esquecer, também nos EUA. Há células terroristas em todas estas nações.

Então é por que estes países estão em guerra civil?

Não, afinal não há guerra civil no Irã, mas há na Nigéria e no Sudão do Sul, que não estão incluídos. De fato, há conflitos nos outros seis países – Síria, Iraque, Líbia, Sudão, Somália e Yemen.

É por que estes países são bombardeados pelos EUA?

Os EUA bombardeiam cinco destes sete países. Mas não bombardeiam o Irã e o Sudão, que estão lista. E bombardeiam o Afeganistão e o Paquistão, que não estão.

É por que estes países dão abrigo ao ISIS?

Iraque, Irã e Síria são as nações mais envolvidas na luta contra o ISIS. Na Líbia e no Yemen, as principais facções envolvidas na guerra civil consideram o ISIS inimigo. No Sudão, não há ISIS. Na Somália, o problema é o Al Shabab.

É por que estes países tem uma cultura diferente da dos EUA?

Lógico que tem. Mas a China, a Arábia Saudita, a Guatemala, o Brasil também têm. E noto que os iranianos nos EUA são muito bem integrados formando a elite de Los Angeles. André Agassi é filho de iranianos. A Síria tem três patriarcados cristãos, superando praticamente todas as nações ocidentais (acho que todas). E os sírios são ruins como imigrantes? Sei, avisem os fundadores do Hospital Sírio-Libanês.

Então é por que o ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh) está ativo nestes países?

Não. Afinal, se esta fosse a definição, a França, Bélgica, Egito, Paquistão e Afeganistão, onde há braços do ISIS, deveriam ser incluídos.

Então qual a lógica?

Não tem lógica.

E por que Trump proibiu os refugiados?

Não tem muito sentido. Refugiados nunca cometeram atentados nos EUA. Os EUA possuem um dos mais severos programas para aceitar refugiados em todo o planeta. São pessoas que fogem de guerras e terrorismo, como sírios e iraquianos. No processo de admissão, pessoas com risco de terrorismo ou crimes são barradas.

Mas Trump não está certo em valorizar cristãos?

Metade dos refugiados aceitos nos EUA são cristãos. Os cristãos devem sim ser recebidos nos EUA, especialmente quando fogem de perseguição religiosa. Ninguém diz o contrário. Mas isso não significa que um muçulmano fugindo da guerra civil da Síria ou do ISIS não deva ser aceito. Os muçulmanos são as maiores vítimas do ISIS e também são os que mais lutam contra a organização – afinal, são soldados sírios e iraquianos, quase na sua totalidade muçulmanos, junto guerreiros peshmerga curdos (também muçulmanos) que estão no campo de batalha lutando contra o ISIS.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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