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Guia para entender a perseguição a cristãos e yazidis no Iraque

gustavochacra

07 de agosto de 2014 | 10h10

O que ocorre com os Yazidis no Iraque?

Cerca de 40 mil membros da religião Yazigi, no Iraque, estão em uma montanha sem acesso à água e alimentos depois de fugirem de invasões do grupo ultra radical ISIS no norte do Iraque. Milhares de outros têm sido expulsos de suas vilas onde vivem há séculos. Eles se somam aos cristãos, alauítas e xiitas que também sofrem com perseguições do ISIS no Oriente Médio. Apenas para esclarecer, o ISIS segue uma vertente ultra radical do islamismo sunita e tampouco aceita seguidores moderados do sunismo. O Exército do Iraque está jogando mantimentos pelo ar para os yazidis tentando reduzir o drama humanitário

Quem são os Yazidis?

Os Yazidis são um povo que segue uma religião misturando o zoroastranismo e o braço sufista do islamismo, acreditando, segundo a revista The Economist, que sete anjos e um Deus protegem o mundo. Etnicamente, eles não se consideram árabes nem curdos, embora os curdos os considerem curdos. Historicamente, vivem nas regiões onde hoje é o Iraque e o Irã e também em uma diáspora ao redor do mundo. Calcula-se que haja cerca de 600 mil ao todo.

Por que o Exército do Iraque não os defende?

O Exército do Iraque não consegue avançar sobre o território controlado pelo ISIS e está mais preocupado em evitar novos avanços deste grupo em direção a Bagdá e outras cidades iraquianas. Um dos problemas é que as Forças Armadas iraquianas são associadas aos xiitas e os territórios nas mãos do ISIS são majoritariamente sunitas. A população sunita iraquiana não gosta do radicalismo do ISIS, mas tampouco concorda com o controle dos xiitas em Bagdá

Qual alternativa os Yazidis podem ter?

A alternativa para os Yazidis seriam os Peshmerga, como são conhecidos os guerrilheiros curdos. Provavelmente, eles terão de rumar para o Curdistão iraquiano.

Eles têm alguma relação com a perseguição aos cristãos no Iraque?

Neste momento, ambos são perseguidos pelo ISIS, que também persegue xiitas.  Duas cidades cristãs foram tomadas hoje pelo ISIS no Iraque.  Mas, historicamente, os Yazidis sempre sofreram com perseguições. Os cristãos, não.  Até 2003, no regime de Saddam Hussein, os cristãos e os árabes sunitas eram protegidos e estavam no comando do poder em Bagdá (o vice de Saddam era o cristão Tariq Aziz). Já os xiitas, os curdos (que são majoritariamente sunitas)  e e os Yazidis sofriam perseguições e até massacres com armas químicas. Mesmo nos tempos otomanos, quando os cristãos e mesmo os judeus eram proeminentes na elite do Iraque, os Yazidis já eram perseguidos.

Certo, mas como está a situação dos cristãos hoje no Iraque?

O cenário mudou com a invasão americana em 2003 e a derrubada de Saddam. Centenas de milhares de cristãos passaram a ser alvo de ataques e os EUA, diferentemente de Saddam, nunca os protegeu. Sem alternativa, os cristãos buscaram abrigo na Síria, onde Bashar al Assad historicamente é visto como um defensor do cristianismo, embora ele seja laico e tenha origem alauíta, e, em menor escala, no Líbano. O resto mundo, incluindo os EUA, praticamente ignorou a questão dos cristãos iraquiano, que são majoritariamente caldeus.

Mas as perseguições aos cristãos se intensificaram nos últimos dois anos?

Sim. Isso se deveu acima de tudo ao crescimento do ISIS e às armas fornecidas pelo Ocidente e pelos países do Golfo a rebeldes da oposição na Síria. Estes, seguindo uma vertente ultra radical do islamismo sunita, passaram a atacar alauítas e cristãos, que são associados ao regime de Assad. Muitos rumaram para cidades sob controle do regime em Damasco e na Costa Mediterrânea, como Tartus e Latakia. Outros cristãos montaram milícias pró-Assad em cidades como Aleppo e sofrem com o apoio do Ocidente a grupos opositores em uma das maiores ironias da geopolítica mundial – a Rússia e o Irã são as potências externas que mais defendem os cristãos do mundo árabe. Mas, aos poucos, o ISIS voltou a atuar também no Iraque e a perseguir os cristãos no país. Muitos cristãos e xiitas são crucificados no Iraque. Na Síria, em áreas sob controle da oposição, cristãos e alauítas chegam a ser crucificados (não há quase xiitas na Síria, a não ser em poucas vilas).

Onde os refugiados cristãos estão seguros no Oriente Médio?

Cristãos sofrem com atentados em Bagdá, mas estão relativamente seguros em regiões controladas por Assad na Síria, onde eles têm total liberdade religiosa e historicamente ocupam altos cargos no governo. Muitos também buscam refúgio no Líbano, um país mais associado ao cristianismo no Oriente Médio, com os cargos de presidente, chefe das Forças Armadas, metade do Parlamento e metade do gabinete ministerial destinados aos cristãos. A maioria, porém, tem seguido na última onda de perseguições para o Curdistão iraquiano. A Jordânia, o Irã e a Turquia também dão abrigo a alguns cristãos, mas nada que se compare ao Líbano e à Síria. Israel e Arábia Saudita não receberam nenhum refugiado cristão do Iraque e da Síria.

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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