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Guia para entender a queda de Palmyra, agora nas mãos do ISIS

gustavochacra

21 de maio de 2015 | 12h55

Estou em Beirute e em breve escreverei mais sobre o Líbano. Hoje temos de falar de Palmyra, na Síria.

O que aconteceu em Palmyra?

Esta cidade síria, com algumas das mais impressionantes ruínas arqueológicas do mundo e patrimônio mundial da humanidade da UNESCO, foi tomada pelo ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Visitei as ruínas de Palmyra no fim dos anos 1990 em uma viagem com a minha família. As ruínas romanas no meio do deserto eram uma das principais atrações turísticas do país, recebendo milhares de estrangeiros todos os anos até o início da Guerra Civil da Síria em 2011.

O ISIS destruirá as ruínas?

Neste momento, toda a humanidade deve torcer para o ISIS não destruir ou saquear Palmyra. Esta organização ultra extremista já destruiu outros sítios arqueológicos no Iraque e mesmo na Síria. Será difícil a “noiva do deserto”, como Palmyra é conhecida na Síria, se salvar ilesa desta ofensiva.

Por que o ISIS tem avançado nos últimos dias?

O ISIS, nesta semana, conseguiu importantes vitórias. Primeiro, em Ramadi, na Província de Ambar, no Iraque. Agora, em Palmyra. Em ambas demonstra que, depois de passar alguns meses na defensiva, sofrendo derrotas, aparentemente conseguiu se reerguer tanto no território iraquiano como no sírio. Isso se deve em parte ao enfraquecimento de seus adversários.

Quem controlava Palmyra?

Palmyra estava nas mãos do regime de Bashar al Assad. Ao longo da guerra civil, houve confrontos com outros grupos rebeldes, mas as forças sírias vinham conseguindo controlar a cidade, que fica bem isolada de Damasco. Com o Assad mais preocupado em não perder território em outras áreas da Síria, depois de ser derrotado em Idlib (fronteira com a Turquia), suas forças estão mais concentradas na faixa que vai de Damasco à costa mediterrânea, passando por Homs e Hama. Nesta área, conta com o apoio fundamental do Hezbollah. Palmyra está longe de ser uma prioridade do regime sírio e as forças remanescentes não tiveram condições de enfrentar o ISIS.

Estrategicamente, o que significa a tomada de Palmyra?

O ISIS agora tem rotas mais simples para chegar a Damasco. Mas não será tão simples enfrentar o regime sírio em áreas mais próximas à capital, especialmente nos territórios com atuação do Hezbollah. O grupo libanês, aliado de Assad, é mais poderoso do que o ISIS e tem mais condições de derrotá-lo. Por outro lado, o ISIS pode retomar a aliança com a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria), que agora ficou bem mais poderosa ao passar a integrar o Jeysh al Fatah. Esta federação de milícias apoiada pela Arábia Saudita, Turquia e Qatar possui como meta derrotar Assad e não o ISIS.

No caso sírio, para evitar o avanço do ISIS os EUA deveriam apoiar o Hezbollah e Assad?

É complexo, porque os dois lados são inimigos dos americanos e não defendem os interesses dos EUA. Um apoio ao Hezbollah, que é considerado terrorista pelo Departamento de Estado americano, certamente irritaria aliados como Israel, Turquia e Arábia Saudita. Dentro dos EUA, politicamente, não existe clima para apoiar Assad. Este suporte também acirraria ainda mais o sentimento anti-EUA entre os sunitas, que consideram o Hezbollah, que é xiita, e Assad, que é laico (embora alauíta de nascimento), seus maiores inimigos.

Então o que os EUA e a comunidade internacional podem fazer para salvar Palmyra?

Não há muito o que fazer. Nem todos os problemas do mundo possuem solução. Uma intervenção militar por terra neste momento está descartada e seria extremamente complexo apenas em Palmyra. Mesmo que isso ocorresse, nada garantiria que a cidade seria salva. Além disso, existe o dilema ético – intervir para salvar ruínas, mas não para salvar os yazidis e os cristãos assírios que são alvos de genocídio?

E os grupos rebeldes que seriam apoiados pelos EUA?

Estes grupos se radicalizaram e integram em grande parte federação de milícias apoiada pela Arábia Saudita com a presença da Al Qaeda. Embora o governo dos EUA fale retoricamente em “rebeldes moderados”, Washington sabe que eles quase inexistem neste momento.

Assad corre o risco de ser deposto?

Aqui em Beirute, tenho escutado mais esta possibilidade. Claramente, o líder sírio, que vinha em sequência de vitórias até o início deste ano, já passando a ser tolerado pelos EUA, passou para a defensiva nos últimos dois meses, perdendo Idlib para os rebeldes apoiados pelos sauditas, agora mais intervencionistas com o rei Salman, e Palmyra para o ISIS. Por outro lado, o regime ainda conta com o apoio do Hezbollah, Irã e Rússia. Este suporte é suficiente para manter Damasco, Homs, Hama e certamente a costa do Mediterrâneo, onde seu controle é quase total. Mas insuficiente para reconquistar outras áreas, incluindo Aleppo e Raqaa. Talvez recupere Palmyra, como recuperou outras cidades no passado.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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