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Guia para entender as ações em Mosul e Aleppo

gustavochacra

27 Outubro 2016 | 12h30

Qual a história de Aleppo e Mosul?

Aleppo e Mosul são duas antigas cidades multireligiosas e multiétnicas que por séculos foram parte do Império Otomano. Com o colapso otomano na Primeira Guerra, foram parte dos mandatos francês e britânico respectivamente. Após a Segunda Guerra, Aleppo se tornou uma cidade da Síria e Mosul, do Iraque.

Anos mais tarde, tanto a Síria quanto o Iraque adotaram o arabismo do Partido Baath. Isto é, a identidade destas nações era acima de tudo árabe, com uma política governamental estatizante. A religião possuía pouca importância – inclusive, muitos cristãos, tanto iraquianos quanto sírios, integraram is regimes no Iraque e na Síria.

Como o arabismo influenciou estas cidades?

No caso iraquiano, o cenário começou a mudar na Guerra do Golfo e mesmo um pouco antes do conflito. Saddam Hussein passou a ter uma agenda sectária árabe sunita contra os árabes xiitas e curdos sunitas. Na prática, porém, a identidade seguia a árabe – não podemos esquecer que seu braço direito era o cristão Tariq Aziz, por exemplo.

A Síria durou mais tempo. Basicamente, até 2011, a identidade árabe se sobrepunha à religião. O regime de Assad sempre foi laico. Isto é, não religioso. Alguns no Ocidente descrevem como “alauíta”. Bobagem. Embora Assad seja sim de origem alauíta, ele não é religioso, tem muitos aliados cristãos e drusos, é casado com uma sunita não religiosa, tem dois vices sunitas e um premiê, também. O Partido Baath ainda é majoritariamente sunita. Todos acima de tudo pregam uma Síria laica, na qual a religião tenha um papel secundário e as minorias sejam protegidas.

Quando Aleppo e Mosul começaram a mudar?

O Iraque, porém, mudou completamente. Desde a queda de Saddam Hussein, passou a ser comandado por árabes xiitas em Bagdá, com o norte basicamente sendo um Estado autônomo dos curdos sunitas. Os árabes sunitas, por sua vez, se enfraqueceram. Isso os deixou órfãos. Alguns, infelizmente, acabaram se associando ao ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh.

Na Síria, um fenômeno parecido ocorreu com sírios que vivem em áreas controladas pelos rebeldes. Sem alternativa, eles estão sob controle do ISIS em áreas como Raqqa e da grupos extremistas, muitas vezes ligados à Al Qaeda, em Aleppo Oriental – Aleppo Ocidental, controlada pelo regime, tem vida bem próxima da normalidade.

Como são as ofensivas para recuperarem estas cidades?

Hoje, uma coalizão liderada pelas Forças Iraquianas, com o apoio dos EUA e do Irã, além de milícias xiitas, tenta recuperar o controle de Mosul, nas mãos de radicais do ISIS. E, em Aleppo, uma coalizão formada pelas forças sírias, com apoio da Rússia e do Irã, além de milícias pró-regime, tentam recuperar Aleppo Oriental, nas mãos de radicais de grupos ligados à Al Qaeda ou ultra extremistas independentes.

Mas, como vocês devem ter notado, na cobertura de Mosul, a ação para recuperar a cidade é vista como “boa”. Na cobertura de Aleppo, porém, a ação para recuperar a parte oriental da cidade das mãos de extremistas é vista como “ruim”.

Qual a diferença entre as duas intervenções?

A diferença? Alguns dirão que os bombardeios russos matam civis. Dirão também que as forças de Assad cometem crimes de guerra. Verdade e verdade. Mas os bombardeios dos EUA não causam destruição e morte de civis em Mosul? E as forças iraquianas e as milícias xiitas não cometem crimes de guerra? Sim e sim, apesar de os EUA tomarem mais “cuidado” do que os russos em suas ações.

Ao acompanhar a cobertura destes conflitos, tenha em mente que todos os lados cometem atrocidades. Não tem absolutamente “bonzinhos”. Existe apenas o “menos grave”. No caso da Síria, por incrível que pareça, a cidade ficará melhor nas mãos do regime – basta ver Aleppo Ocidental. No caso de Mosul, ficará melhor se o ISIS for eliminado pelas forças iraquianas, com o apoio dos EUA. Ambas cidades, porém, seguirão péssimas por anos. E note o envolvimento do Irã em ambas ações – e a ausência da Arábia Saudita.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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