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Guia para entender ataque terrorista de branco contra igreja de negros nos EUA

gustavochacra

18 de junho de 2015 | 06h47

O que houve?

Um terrorista branco invadiu uma Igreja frequentada por negros na Carolina do Sul na noite de ontem e matou nove pessoas no maior atentado nos EUA desde o 11 de Setembro, superando a Maratona de Boston, em número de vítimas – houve outros episódios de atiradores, mas as ações deles não possuíam motivação ideológica aparente.

Qual a motivação do terrorista?

Não sabemos ainda quem foi o terrorista. Pela descrição, sabemos apenas se tratar de uma pessoa branca de cerca de 20 anos. De acordo com as primeiras informações, e isso não é uma conclusão final, a motivação foi racial (pode ter sido outra também). Charleston vinha enfrentando tensões raciais recentemente após um policial ter sido filmado matando um negro que não apresentava ameaça a ele.

Quais lições deixa o episódio?

O episódio de ontem deixa duas lições claras para os EUA. Primeiro, o problema do racismo. Em segundo lugar, a facilidade para comprar armas.

Como é a questão do racismo na Carolina do Sul?

Morei na Carolina do Sul quando era adolescente. Na minha high school, a divisão entre brancos, de um lado, e negros, de outro, era total. Eu, por ser intercambiário e atleta, era aceito pelos dois lados – não havia quase hispânicos na minha escola. Nas casas da minha cidade, um subúrbio de Columbia, havia ainda bandeiras dos confederados hasteadas na entrada ao lado da dos EUA. Na Igreja da minha família do intercâmbio, todos eram brancos. E havia igrejas nas quais todos eram negros.

Como é a questão do racismo nos EUA?

O racismo existe e ainda é imenso nos EUA, especialmente no sul. Sem dúvida, a segregação foi superada. Sem dúvida, os americanos elegeram um negro presidente, tiveram dois secretários de Estado e dois secretários da Justiça, incluindo a atual, negra. Sem dúvida, há juízes da Suprema Corte negros. Houve avanço.

Cresceu o racismo nos EUA?

Nos últimos anos, porém, cresceu a tensão racial. Talvez seja um fenômeno das redes sociais e dos celulares filmando os abusos da contra negros, inclusive da polícia. Mas a única certeza é haver um problema grave nos EUA.

E a questão das armas?

Já a questão da facilidade para comprar armas, amparada pela Segunda Emenda da Constituição, precisa ser debatida com mais seriedade. Tentaram restringir o porte depois dos massacres no cinema no Colorado em uma escola em Connecticut. E, claro, sempre volta o tema quando ocorre um ataque como o de ontem. No fim, todas as vezes as tentativas fracassaram.

Por que há resistência há restrições a armamentos?

Note, não se fala em proibir armas. Isso jamais seria aceito na sociedade americana que dependeu sim do armamento dos seus cidadãos para conquistar território no passado e se defender em áreas mais isoladas onde não há presença da polícia. E há questão importante do ideal libertário americano de temer o Estado e os cidadãos precisarem se armar para se defender do monopólio estatal – acho estes argumentos ultra legítimos. Mas isso não justifica um maluco poder comprar armas na internet ou poder circular com uma semi-automática em cafés e no aeroporto em Estados como a Georgia.

Qual o índice de violência nos EUA?

No Brasil, alguns que defendem o porte de armas irrestrito usam o exemplo os americanos. Apenas não falam que o país mais violento, entre os desenvolvidos, é justamente os EUA, incomparavelmente à frente da Alemanha, França e Reino Unido. Não falam que a grande cidade mais segura dos EUA é Nova York, onde há restrição a armamentos. Não falam que algumas grandes cidades americanas, como Baltimore, Detroit e New Orleans, possuem índice de homicídio para cada 100 mil habitantes superior ao Brasil. Não falam que o índice de Chicago supera o de São Paulo.

 Adendo

Estou em Berlim. Para mim, esta cidade, talvez a mais evoluída atualmente, aprendeu com os erros – talvez alguns dos maiores no século 20. Teve o nazismo, quando os judeus, ciganos e outras minorias foram perseguidas. Depois, teve a divisão por um muro construído regime comunista. Hoje, pessoas do mundo todo, das mais variadas origens, convivem pacificamente nesta fantástica capital da Alemanha.