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Guia para entender o atentado em Istambul

gustavochacra

12 Janeiro 2016 | 12h30

O que aconteceu em Istambul?

Um terrorista suicida se explodiu e matou ao menos dez pessoas, incluindo muitos turistas, em uma praça de Sultanahmet, a região histórica de Istambul, maior cidade da Turquia. Nesta área, se localizam as principais atrações da cidade, como a Mesquita Azul e a Hagia Sophia, uma antiga basílica bizantina e hoje museu.

 Quem foi o responsável?

As autoridades turcas afirmam que foi um refugiado sírio (há mais de um milhão no país), mas agora há indicações de que essa saudita. Aparentemente ele integra o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Neste momento, parece estar descartado que seja membro do PKK, como é conhecido um grupo curdo considerado terrorista pela Turquia.

Qual a relação da Turquia com o ISIS?

É uma relação controversa. O governo turco, oficialmente, luta contra o ISIS na coalizão liderada pelos EUA. Mas, no passado, foi acusado de apoiar a organização. Na Guerra da Síria, o regime de Bashar al Assad e os curdos sírios são considerados os principais adversários da Turquia, que apoia grupo rebeldes, sendo alguns deles extremistas e ligados à Frente Nusrah, como é conhecido o braço da Al Qaeda no país

Por que o ISIS atacaria Istambul?

Há pelo menos quatro razões. Primeiro, para punir o governo de Erdogan por ter se distanciado do ISIS. O grupo já atacou também a Turquia em Ancara, capital da Turquia, em outubro, matando mais de cem. Em segundo lugar, porque Istambul é uma cidade que recebe turistas do mundo todo e o ataque atinge indiretamente uma série de países. Terceiro, porque é mais fácil atacar a Turquia do que os EUA ou o Irã, considerados os maiores inimigos da organização – embora aliados iranianos, como o Hezbollah, o governo do Iraque e o regime de Assad, tenham sido alvo de atentados do ISIS

O ataque significa que o ISIS está mais forte?

Não. Na verdade, conforme escrevi aqui na semana passada, o ISIS intensificará o número de atentados justamente porque vem sendo derrotado, especialmente no Iraque, onde perdeu Ramadi. As ações terroristas são uma forma de propaganda, tentando mostrar que o grupo segue forte. Outros atentados certamente ocorrerão em outras partes do mundo neste ano.

Como o ataque afeta a economia da Turquia?

Afeta a área de turismo. Embora tenha uma economia diversificada e emergente, o turismo é importante para a economia da Turquia. O país recebe incomparavelmente mais turistas do que o Brasil, por exemplo. Possivelmente, você conhece alguém que já visitou a Turqua. O país, recentemente, foi afetado pela crise com a Rússia, país de origem da maior parte de turistas. Agora, europeus e americanos também podem começar a evitar o país. Mas a crise não será similar à do Egito

Como o ataque afeta a Turquia no combate ao ISIS?

Haverá uma pressão maior para Erdogan se focar mais no combate à organização em vez de se preocupar tanto com Assad e os curdos neste momento. Mas, no fim, o governo de Erdogan não deve alterar tanto a sua política

A Turquia é um país islâmico?

Não. Mas a Turquia é um país de maioria muçulmana sunita que possui um governo laico há quase cem anos, desde a Revolução de Mustafa Kemal Ataturk, que ocidentalizou o país. O atual partido no poder, o AKP, é mais religioso e deixou o país um pouco mais conservador, mas infinitamente mais liberal do que nações como a Arábia Saudita. Os curdos da Turquia também são majoritariamente muçulmanos sunitas. Há minorias cristãs armênias e judaicas. Em muitas áreas, Istambul até lembra grandes cidades europeias ou Buenos Aires, como em uma partida do Fenerbace, do Galatasaray ou do Besiktas, em um jantar no bairro de Nisantasi, em uma caminhada pela rua Istklal. Istambul, em algumas áreas, é mais sofisticada do que São Paulo. Um dos maiores ídolos do país, sendo quase um Deus com direito a estátua, é o o ex-jogador Alex, que nossos técnicos deixaram fora de Copas do Mundo, algo que deixa muitos turcos, que tão ou mais fanáticos do que os brasileiros por futebol, indignados

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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