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Guia para entender o pós-atentado de Boston

gustavochacra

21 de abril de 2013 | 10h23

O que se sabe até agora?

Existem dois suspeitos pelo atentado. São Tamerlan Tsarnaev, 26, e seu irmão, Dzokhar, de 19. O mais velho morreu durante a perseguição e o mais novo está gravemente ferido em um hospital de Boston. Eles têm origem tchetchena, mas nasceram no Daguestão. Tanto a Tchetchênia quanto o Daguestão são repúblicas separatistas da Federação Russa. Eles imigraram para os EUA há dez anos, na época com passaporte do Quirguistão, uma nação independente que integrou a União Soviética. O caçula possui cidadania americana desde o ano passado. O mais velho teve o pedido de naturalização rejeitado, mas tinha o Green Card (direito de residência)

Quais as provas contra eles?

Os irmãos são suspeitos do atentado. As provas seriam imagens deles caminhando perto do local onde explodiram a bomba com mochilas similares às usadas na explosão. Não se sabe se o FBI possui outras imagens. Um homem que teria sido sequestrado em seu carro durante a fuga dos dois jovens disse que eles teriam confessado o atentado

Como eram estes dois jovens?

O mais novo é descrito como uma figura carismática e simpática pelos amigos. Estudava na Universidade de Massachusetts biologia marinha, chegou a fumar maconha ocasionalmente e jogava futebol e praticava luta greco-romana. O mais velho tinha uma mulher e um filho, havia largado o curso de engenharia e era o maior boxeador amador de Boston. Muçulmano, ele havia adotado um perfil mais conservador nos últimos anos, sendo usuário de vídeos de clérigos radicais. O mais novo frequentava a mesquita, mas nunca foi descrito como um radical

 Qual o foco da investigação agora?

O mais velho, no passado, foi interrogado pelo FBI a pedido da Rússia. Moscou temia que ele fosse integrante movimentos separatistas tchetchenos. No ano passado, ele passou seis meses no Daquestão, onde vive seu pai. O foco dos investigadores será no período que ele passou nesta região do Cáucaso, que podem ter provocado um efeito transformativo nele. O mais novo, sempre de acordo com especulações  não baseadas em provas, teria sido influenciado pelo mais velho. E-mails e ligações telefônicas dos dois também serão rastreadas

Eles possuíam ligação com o separatismo tchetcheno? O que é o separatismo tchetcheno?

Depois do colapso da União Soviética, as repúblicas soviéticas, como a Ucrânia, Geórgia, Lituânia e Cazaquistão ficaram independentes da Rússia. O mesmo não se aplicou a repúblicas russas, como a Tchetchênia e o Daguestão. Nestas regiões, de maioria islâmica, emergiram movimentos separatistas inicialmente não religiosos. Nos anos 1990, houve a Guerra da Tchetchênia. O governo central em Moscou venceu. Na década passada, estes grupos cometeram atentados em um teatro na capital russa e também um ataque contra uma escola em Beslan. O foco dos tchetchenos, porém, sempre foi a Rússia, não os EUA. Os americanos não eram e não são vistos como inimigos pelos separatistas tchetchenos. Além disso, não há nenhuma evidência de que os dois jovens integrassem estas organizações

Os dois jovens possuíam ligação com a Al Qaeda ou outros grupos jihadistas?

Não há nenhuma prova de ligação entre eles e organizações terroristas que adotam uma vertente ultra radical do islamismo, diferente da praticada pela imensa maioria dos 1 bilhão de muçulmanos ao redor do mundo, que rejeitam o terrorismo e condenaram o atentado em Boston. Além disso, tchetchenos nunca se envolveram em atentados terroristas contra o Ocidente, embora existam pessoas com esta origem lutando contra os EUA no Afeganistão e contra o governo do Iraque. Também há notícias de tchetchenos lutando ao lado de rebeldes da oposição síria contra o regime de Bashar al Assad na Síria. Mas, mais uma vez, os dois jovens saíram muito cedo de sua terra de origem e não há evidências de relações deles com o jihadismo global. O mais novo era, acima de tudo, americano

Eles podem ter sido inspirados pela Al Qaeda ou outros grupos jihadistas?

Sim. Especialmente o mais velho, que havia se tornado mais religioso. A bomba utilizada é similar a algumas receitas de explosivos publicadas na revista Inspire da internet, publicada pela Al Qaeda. Mas não há provas de que eles tenham sido inspirados pela rede terrorista de Osama bin Laden

A radicalização teria ocorrido nos EUA?

Se eles realmente cometeram o atentado com inspiração no jihadismo internacional, eles devem ter se radicalizado nos EUA. Não seria o primeiro caso. No passado, o mesmo ocorreu com os acusados pelas tentativas de atentado no Times Square, em 2010, e contra o metrô de Nova York, em 2009. O atirador de Fort Hood, no Texas, também havia se tornado mais radical nos EUA. Em todos estes casos, assim como no dos irmãos, eles teriam se radicalizado nos EUA. Mas o de Fort Hood possuía links com membros da Al Qaeda

 O suspeito será julgado como criminoso ou combatente inimigo?

Será julgado como criminoso por ser um cidadão americano que cometeu um crime dentro dos EUA. Sua situação é exatamente igual à de Timothy McVeigh, autor do atentado de Oklahoma City, nos anos 1990. Ele não será descrito como combatente inimigo, uma designação que permite ao governo dos EUA prender por tempo indeterminado ou até mesmo matar suspeitos de terrorismo

Os Direitos Miranda se aplicam ao suspeito mais jovem?

Os direitos Miranda garantem a qualquer cidadão americano o direito de ficar calado e de ter um advogado. Mas deve ser usada uma das três exceções, quando a segurança pública está em risco

O jovem pode ser condenado à pena de morte?

Se for julgado pelas leis de Massachusetts, não, pois o Estado baniu a pena de morte. Se for julgado pelas leis federais, pode ser condenado à pena capital

Existem outros suspeitos?

Não, apenas os dois. Mas, em uma série de sites alternativos americanos, há informações sobre outros possíveis responsáveis pelo atentado. Segundo estes sites e blogs, o FBI armou tudo contra os dois jovens para encobrir os supostos responsáveis.

Obs. Não publiquei mais posts ao longo da sexta-feira por dois motivos. Primeiro, queria ter informações um pouco mais consolidadas. Em segundo lugar, fiquei ao vivo na Globo News e com diversas entradas na Rádio Estadão

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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