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Guia para entender os protestos no Irã

gustavochacra

01 Janeiro 2018 | 13h46

O que ocorre no Irã?

Na quinta-feira, manifestantes protestaram contra o regime em Mashhad, uma das principais cidades iranianas. Ao longo do fim de semana, os protestos chegaram a Teerã. As manifestações possuem entre centenas e milhares de pessoas. Em algumas delas, há cenas de vandalismo e 12 pessoas morreram, de acordo com a BBC. Os participantes são em sua maioria homens e jovens. O foco deles era inicialmente na economia. Aos poucos, começaram a entoar gritos contra o presidente Hassan Rouhani e contra o líder supremo do Irã, aiatolá Khamanei. Também condenam o envolvimento e gastos do regime iraniano com conflitos na Síria e Iraque e o apoio a grupos como o Hezbollah no Líbano, enquanto o país passa por crise econômica.

Quem está por trás dos protestos?

O presidente Rouhani e seus aliados, que seguem uma linha mais moderada para padrões iranianos, acusam os conservadores. Mas, como os manifestantes também protestam contra os conservadores aiatolá Khamanei e as Guardas Revolucionárias, não está claro. Parece haver sim uma certa espontaneidade com os manifestantes se organizando pelas redes sociais, especialmente o Telegram e o Instagram – ambos passaram a ser restringidos.

O que diz o regime?

Quem tem se manifestado é o presidente Rouhani. Ele afirmou, por um lado, que não “irá tolerar estes que destruam as propriedades privadas e violem a ordem pública”. Por outro lado, afirmou serem legítimas algumas das demandas econômicas. Apesar de o cenário econômico ter melhorado um pouco, a economia iraniana ainda tem elevado desemprego, especialmente entre os jovens.

E o que diz Trump?

Trump afirmou no Twitter que o Irã está fracassando em todos os níveis apesar do acordo nuclear assinado com o governo Obama. “O grande povo iraniano tem sido reprimido por anos. Estão famintos por comida e liberdade”, disse, também condenando a violação dos direitos humanos. “Hora de mudança”, finalizou.

Rouhani respondeu dizendo que Trump chamou a “nação iraniana de terrorista” em um passado recente. O presidente americano é extremamente impopular no Irã por ao menos quatro motivos – declarações vistas como islamofóbicas, a proibição de iranianos visitarem os EUA, a aproximação com a Arábia Saudita (chegando a chamar o Golfo Pérsico de Golfo Arábico) e o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel.

O que deve ocorrer agora no Irã?

Na avaliação da consultoria de risco político Eurasia

“These protests are very unlikely to result in a revolutionary tipping point for Iran. The differences between current events and the Green Movement of 2009-2010 are significant. In 2009, protesters had a well-articulated demand – correct voter fraud in the presidential election. The movement had a leader, Mir Hossein Mousavi. It was well-organized, included millions of participants, and was based in the country’s nerve center – Tehran. The ongoing protests, by contrast, show no well-defined demands, no leadership or organization, and are diffuse around Iran. Their size is much smaller. The protests could well recur and will inflict a hit on regime legitimacy, raising questions about regime continuity over the next decade. And unrest is admittedly unpredictable — coming days could take unexpected turns. Signposts of a surprise include; a leader or small group of leaders emerging, a defined manifesto, and much larger protests.”

Já a BBC diz que

“There is widespread and seething discontent in Iran where repression is pervasive and economic hardship is getting worse – one BBC Persian investigation has found that on average Iranians have become 15% poorer in the past 10 years. Protests have remained confined to relatively small pockets of mostly young male demonstrators who are demanding the overthrow of the clerical regime. They have spread to small towns throughout the country and have the potential to grow in size. But there is no obvious leadership. Opposition figures have long been silenced or sent into exile. Some protesters have been calling for the return of the monarchy and the former shah’s son, Reza Pahlavi, who lives in exile in the United States, has issued a statement supporting the demonstrations. But there are signs that he is as much in the dark about where these protests are going as anyone else.”

Apesar da cautela destes analistas,não dá para descartar um crescimento nas manifestações, com um resultado totalmente imprevisível. Pode não dar em nada. Mas na Tunísia começou assim em 2010 e terminou com queda do regime não apenas em Tunis, mas também na Líbia, Egito e Yemen.

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