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Guia para entender Yarmouk, um dos piores lugares do mundo

gustavochacra

06 de abril de 2015 | 16h37

O que é Yarmouk?

Yarmouk era um campo de refugiados palestinos nos arredores de Damasco. Até 2011, a região se parecia com um bairro pobre de grandes cidades de países em desenvolvimento ao redor do mundo. Não era miserável. As casas, em sua maioria, eram de alvenaria e possuíam energia elétrica e saneamento básico. Havia um comércio e ruas relativamente limpas.  Ao todo, eram 150 mil habitantes.

 Como era a vida dos palestinos em Yarmouk?

Os palestinos na Síria, diferentemente do que ocorre com os do Líbano, antes da guerra, possuíam quase todos os direitos, incluindo educação e saúde. Não eram, porém, cidadãos – na Jordânia, o outro países árabe com refugiados, os palestinos têm direito à cidadania.

Quando começou a crise em Yarmouk?

A segurança do campo, assim como ocorre no Líbano, sempre foi dividida entre diferentes facções palestinas, incluindo a marxista Frente Popular pela Libertação da Palestina, o religioso Hamas e o secular Fatah. Quando eclodiu a guerra, o Hamas, que sempre recebeu guarida de Bashar al Assad, decidiu apoiar a oposição, majoritariamente religiosa sunita – o regime sírio é laico e apoiado por minorias religiosas, como os alauítas, cristãos e drusos, além de sunitas seculares.

Qual foi a reação de Assad?

Assad não perdoou a traição e expulsou as lideranças do Hamas do país. Yarmouk se tornou um palco de guerra civil palestina, com algumas facções apoiadas e armadas pelo regime e outras pela oposição. Mais grave, o regime sírio impôs um cerco isolando completamente o campo, impedindo a entrada de mantimentos, incluindo alimentos e remédios, a quem apoiasse a oposição ou o Hamas. A população se reduziu para 18 mil habitantes, com muitos indo para outros campos na Síria ou, se conseguissem, para o Líbano.

 O que ocorreu agora?

Nas últimas semanas, a situação, que já era grotesca, piorou. O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, assumiu o controle de Yarmouk. E, assim como ocorre em outras partes da Síria, impôs sua violência massacrando os habitantes.

 Como o ISIS conseguiu entrar em Yarmouk?

A entrada do ISIS no campo surpreendeu, já que esta organização sempre teve dificuldade de se aproximar de Damasco, com suas forças mais concentradas, na Província de Raqaa, na fronteira com o Iraque. Desta vez, conseguiu graças a uma parceria com seus inimigos da Frente Nusrah, como é conhecida a Al Qaeda na Península Arábica, e de milícias rebeldes treinadas pelos EUA e pela Jordânia que tem lutado ao lado terroristas contra Assad.

O ISIS está vencendo a guerra?

A tomada de Yarmouk não significa que o ISIS esteja vencendo a guerra. Na verdade, vem perdendo feio no Iraque. Na Síria, o cenário mais complexo. Tem perdido em alguns lugares, mas avançado em outros.

 E a Assad?

E a tomada de Yarmouk tampouco significa que Assad esteja perdendo a guerra. Damasco continua solidamente nas mãos da regime, assim como quase todas as principais cidades do país, tirando Raqaa, bem distante, e, mais recentemente, Idlib, que passou para as mãos da Al Qaeda. As principais partes de Aleppo, em disputa, estão com Assad, assim como Homs, Hama e as mediterrâneas Tartus e Latakia.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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