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Há 4 anos falo da similaridade entre o PT e o partido de Erdogan, na Turquia

gustavochacra

23 Junho 2013 | 11h56

Agora, virou moda comparar o Brasil à Turquia. Eu alertei neste post para as semelhanças entre o PT e o AKP em março de 2009, bem antes de os dois países se tornarem alvo de protestos. Acho que, mesmo neste momento, vale a pena ler o texto abaixo para observar como estas duas nações emergentes chegaram a este ponto.

“O premiê turco, Racep Tayyip Erdogan, é uma espécie de Lula da Turquia. Seu partido, o AKP, seria o PT. Os dois líderes superaram obstáculos para chegar ao poder, enfrentaram preconceito das elites e surpreenderam na administração da economia, recebendo elogios internacionais. Ao mesmo tempo, tanto o PT quanto o AKP são acusados de, uma vez no comando, terem se envolvido em corrupção e buscado perpetuação no governo.

O AKP é um partido de origem religiosa. Isso é um choque para a ocidentalizada elite turca. Seus líderes seguem o islã à risca e as suas mulheres cobrem a cabeça. Algo que seria inaceitável nos tempos de Mustapha Kemal Ataturk, que secularizou o país. Depois de décadas mirando a Europa, Erdogan voltou a olhar para os vizinhos do Oriente Médio. O premiê adotou um discurso pró-Palestino, reconhece o Hamas e o Hezbollah, mantém boas relações com o Irã e negociava a paz entre a Síria e Israel. De certa forma, até dezembro, não tinha inimizade com ninguém na região. Mesmo os curdos do Iraque, aos poucos, dialogavam com o seu governo.

Porém a Guerra de Gaza foi uma guinada nas relações entre a Turquia e Israel. Erdogan foi contra a ofensiva israelense e se sentiu traído pelo premiê Ehud Olmert. Dias antes do início do conflito, os dois se encontraram e o líder de Israel não comentou com o primeiro-ministro turco que a operação contra o Hamas estava pronta. O relato foi feito pelo próprio Erdogan à revista Newsweek. Pior, Olmert teria consultado o presidente do Egito, Hosni Mubarak, antes de agir. A Turquia, aliado militar de Israel, na visão do premiê, não podia se conformar em ser deixada para trás. Na discussão com o presidente de Israel, Shimon Peres, em Davos, Erdogan manifestou toda a sua revolta – porém, ao contrário do divulgado, ele saiu nervoso com o jornalista David Ignatius, do Washington Post, que mediava o debate, e não com o líder israelense. O premiê turco queria o mesmo tempo para falar que Peres e este não foi concedido pelo mediador. Para Erdogan, Israel também deveria ser barrado da ONU por não respeitar determinações do Conselho de Segurança – o governo israelense não acatou resolução pedindo o cessar-fogo.

No plano interno, o AKP, assim como o PT, ainda enfrenta resistências. Agora, os ataques se devem à censura de jornais contrários ao governo. No fim de semana, um deles saiu com a capa em branco e o outro comparando novas publicações pró-governo lançadas recentemente a jornais nazistas. Por enquanto, a Turquia não foi tão afetada pela crise como países do Leste Europeu, com quem faz fronteira ao norte. Se tudo continuar bem, assim como Lula, Erdogan pode respirar aliviado. O problema é se o cenário se agravar. O Exército turco, forte e tradicionalmente secular, ainda não tolera o premiê e está preparado para intervir na primeira oportunidade que tiver.”

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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