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Há um único mundo islâmico? Episódio 1 – Síria e Arábia Saudita

gustavochacra

02 de março de 2017 | 13h24

A Síria tem uma história diferente da Arábia Saudita. E produziu uma sociedade distinta. Também o Irã tem pouco a ver com os sauditas e com os sírios. O mesmo vale para os argelinos e turcos. Incluir todos em uma generalização de “mundo islâmico” acaba deixando de lado nuances fundamentais para compreender conflitos e o mundo de hoje. E estou me restringindo apenas ao Oriente Médio e Norte da África. Não falo aqui de nações como a Indonésia, maior país muçulmano do mundo, do Paquistão, da Bósnia ou do Mali.

A Síria sofreu influência grega, romana e otomana? E a Arábia Saudita?

Sim, a Síria sofreu enorme influência grega, romana-bizantina e otomana. Sempre teve um caráter multireligioso. E por séculos esteve voltada para o comércio com o Mediterrâneo, servindo de entreposto para negócios com o restante da Ásia via deserto. Na Arábia Saudita, influência grego, romana-bizantina e otomana foi pequena ou quase inexistente. Os sauditas historicamente e viviam em tribos no Golfo e seguem a vertente wahabbita do islamismo sunita, com uma minoria xiita no leste do país.

Mas os dois países não são árabes?

Sim, assim como a Arábia Saudita, a língua da Síria é o árabe e é majoritariamente islâmica sunita. Mas o dialeto árabe sírio se difere do saudita. E a corrente do islamismo sunita sempre foi diferente. Também há diferenças na culinária. O quibe e a esfiha são comidas sírio-libanesas, não sauditas.

Como é a situação dos cristãos nos dois países?

Não há igrejas na Arábia Saudita. Na Síria, há centenas de igrejas, milhões de cristãos e três patriarcados – o Grego-Ortodoxo Antioquino, o Grego-Católico (Melquita) e o Siríaco-Ortodoxo. Nas áreas sob controle do regime de Assad, cristãos vivem relativamente bem, mas são perseguidos em áreas controladas pela oposição.

E a influência francesa e da arabismo na Síria?

Tem mais. A Síria esteve sob mandato francês e a construção do Estado sírio, naturalmente, sofreu influência francesa. Depois de independente, migrou para um “arabismo” laico que pode ser observado até hoje no regime de Bashar al Assad. Este fenômeno não ocorreu na Arábia Saudita.

E o papel das mulheres nos dois países?

Nas praias sauditas, é impensável uma mulher de biquíni. Na Síria, muitas mulheres vão às praias de Latakia e Tartus até hoje de biquíni. Na Arábia Saudita, mulheres precisam cobrir a cabeça. Na Síria, muitas não cobrem, incluindo a primeira-dama, sempre de cabelos soltos. Um dos vice-presidentes da Síria é mulher, assim como a principal assessora de Assad e algumas deputadas. Isso inexiste na Arábia Saudita, onde mulheres não podem dirigir.

Como o petróleo afeta os dois países?

A Arábia Saudita também ganhou muito dinheiro com petróleo. A Síria não teve a mesma sorte. Tem uma economia bem mais atrasada, em parte por incompetência do governo. Os sauditas são historicamente aliados dos americanos. O regime sírio, inimigo. E os sírios são aliados dos russos.

Qual a diferença das Diásporas?

Não há diáspora saudita pelo mundo, a não ser por jovens estudantes nos EUA e Reino Unido. Sírios, embora em escala menor do que os libaneses, imigraram em grandes números no século 20, especialmente para a América – obviamente, agora há questão dos refugiados.

Seguirei falando destas diferenças nos próximos dias entre outros países.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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