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Hamas prefere morte a protestos pacíficos como os da Tahrir

gustavochacra

19 de novembro de 2012 | 11h50

Quando os tunisianos e os egípcios saíram às ruas no início de 2011 e derrubaram seus ditadores, através de protestos pacíficos como os da praça Tahrir, imaginei equivocadamente que os palestinos agiriam da mesma forma para se manifestar a favor do direito a um Estado depois de anos de congelamento nas negociações.

Dezenas de milhares de pessoas poderiam protestar com bandeiras palestinas diante de postos de controle israelenses ou nas praças de Ramallah, Gaza e Nablus pedindo a criação da Palestina convivendo em paz e segurança ao lado de Israel.

Tenham certeza, toda a imprensa mundial, do Le Monde ao Estadão, do An Nahar ao New York Times, estaria presente para cobrir estes atos pró-paz. Mais importante, os israelenses em suas casas em Tel Aviv, Haifa e Jerusalém poderiam ver a chance para a paz, e não viver em medo de serem atingidos por um foguete lançado de Gaza com a única intenção de matar.

Ações pró-paz não são inócuas, como argumentam alguns defensores da luta armada. Além da Tahrir, no Cairo, atos pacíficos palestinos obtiveram sucesso em pequenas vilas da Cisjordânia, como Budrus (vejam filme da documentarista Julia Bacha), ao convencer a Justiça israelense a forçar o governo a alterar o trajeto do muro separando Israel do território palestino, levando em conta a geografia da região.

Fazia ainda mais sentido levar adiante protestos pacíficos depois do fracasso total do terrorismo suicida da segunda Intifada entre 2002 e 2004 e do lançamento de foguetes na Guerra de Gaza, quatro anos atrás. Milhares de palestinos morreram nestas iniciativas que não conseguiram avançar um centímetro no sonho de ter um Estado. Ao contrário, apenas regrediram este ideal que conta com o apoio de todos os 193 membros da ONU, incluindo Israel, desde que seja por meio de negociações.

O Hamas, porém, decidiu mais uma vez pegar em armas para provocar Israel. O grupo palestino, desde o início, sabia qual seria o resultado da chuva de foguetes sobre Sderot, Ashkelon, Ashdod e agora até Tel Aviv e Jerusalém. Basicamente, Israel responderia da forma que está respondendo, com o apoio de 90% da população judaica, segundo pesquisa do Haaretz.

Obviamente, existe uma lógica por trás destas ações. Primeiro, o Hamas quer sim matar israelenses. Em segundo lugar, o grupo busca deteriorar a imagem de Israel no mundo ao usar as mortes de palestinos nas respostas israelenses para descrever o adversário como sanguinário.

Para o Hamas, é uma vitória quando consegue matar israelenses na guerra armada. E também é uma vitória quando palestinos são mortos, pois na guerra de publicidade podem acusar Israel de ser o “mal”.

Esta estratégia explica inclusive a colocação de lançadores de foguetes em áreas civis de Gaza, onde moram famílias. Assim, podem usá-los para matar israelenses. Mas, se Israel os localizar antes e os bombardear, o Hamas terá as fotos das crianças mortas para serem distribuídas por todo o mundo.

É uma lógica imbecil e assassina e que não dará aos palestinos o sonho de um Estado. A população de Gaza deveria olhar para os jovens da praça Tahrir ou para os de Budrus, na Cisjordânia, não para sanguinária oposição síria, caso queiram atingir seu objetivo. É óbvio que precisa ser criado um Estado palestino. Mas duvido alguém demonstrar que a chuva de foguetes seja o melhor caminho para alcançar este sonho.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios