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Hezbollah faz exposição anti-Israel para celebrar seu líder militar

gustavochacra

13 de novembro de 2008 | 09h06

A figura mais conhecida do Hezbollah é, há quase duas décadas, o xeque Hassan Nasrallah. Com seus discursos inflamados e um carisma que fez este líder xiita ser idolatrado até mesmo pelos sunitas palestinos do Hamas, ele incorpora o lado civil da organização libanesa que é considerada terrorista por Israel e pelos Estados Unidos, mas que para muitos árabes e muçulmanos trata-se de uma resistência contra a ocupação israelense.

Por trás dele, diziam Israel e o EUA, havia uma eminência parda que seria o responsável por uma série de ataques terroristas ao redor do mundo – teria sido, segundo Washington, a pessoa que mais matou americanos até o 11 de Setembro – e principalmente por organizar e treinar guerrilheiros do grupo para combates contra Israel. Seu nome era Imad Mughniyeh. Ao contrário de Nasrallah, sua cara nunca aparecia. Tampouco seu nome era mencionado pelo grupo. Em um livro escrito pelo número dois da organização, Naim Qassem, sobre o Hezbollah, Mughniyeh não é citado.

No dia 12 de fevereiro deste ano, Mughniyeh finalmente deixaria de ser eminência parda. Mas não para se tornar o verdadeiro líder do Hezbollah. Esse posto ele nunca almejou, pois sempre respeitou a hierarquia do grupo e também era seduzido pelo carisma de Nasrallah. Na verdade, Mughniyeh se converteu no maior mártir da história da organização libanesa ao morrer de uma forma que ele é acusado de ter assassinado muito gente. Uma bomba colocada em seu carro explodiu quando ele saia de seu esconderijo em Damasco. Há uma série de conspirações sobre quem seriam os autores. Oficialmente, o Hezbollah acusa Israel, que se manteve calado, mas celebrando a morte de um de seus maiores inimigos.

Para marcar a importância de Mughniyeh, o Hezbollah decidiu organizar uma mega exposição em sua homenagem na cidade de Nabatieh, um dos bastiões da organização no sul Líbano. Em pouco mais de duas semanas, com a ajuda voluntária de 200 pessoas, a exibição abriu suas portas em setembro.

Um mega outdoor com a imagem de Mughniyeh, que até fevereiro não era mostrada pela organização, foi colocada na entrada. A porta principal era uma versão gigantesca do boné verde que o líder militar do Hezbollah costumava usar. Após cruzar uma ponte, o visitante entra numa praça em que o chão tem as siglas, em hebraico, de todas as divisões do Exército de Israel. Um uma área um pouco mais elevada, também em hebraico, está escrito IDF (a sigla em inglês para Forças de Defesa de Israel). O objetivo é que as pessoas pisem em cima de Israel.

Ao lado, vários cubos de vidro mostram roupas, latas de sardinha, pára-quedas, rádios e armamentos de Israel. Em um deles, há um esqueleto falso bizarro para que ele represente os israelenses que foram mortos pelo Hezbollah na guerra de 2006. Há quatro tanques, sendo dois deles Merkavas – o mais poderoso de Israel. Pôsteres mostram navio israelense que o grupo libanês conseguiu atingir.

Uma torre de observação de Israel, com uma bandeira despedaçada, também estava exposta. Mísseis que o guia fazia questão de dizer que eram similares aos lançados contra Haifa também eram exibidos para os turistas. Há uma área dedicada apenas ao que o Hezbollah chama de mártires. São membros da organização que morreram lutando contra os israelenses. Entre eles, o filho de Nasrallah.

No alto, os organizadores montaram, em um cubo de vidro, o escritório que Mughnyieh usava em Damasco. Mesa, cadeira, agenda, carteira, escova de cabelos e óculos. Não falta nada. E tudo original. Um grupos de meninas de não mais de 12 anos se enfileiraram diante do cubo e juraram em nome de Mughniyeh que sempre lutarão contra os israelenses até que consigam libertar todas as terras árabes.

Três filmes são exibidos dentro de um galpão que é denominado paraíso dos mártires. Todos em homenagem a Mughnyieh. Em um deles, o líder militar do Hezbollah da ordens para que militantes do grupo disparem mísseis. Na sequência, aparecem veículos militares de Israel sendo destruídos.

No final da exibição, há uma lanchonete e uma loja de bugigangas que vende copos, relógios, travesseiros e chaveiros com as imagens de Mughnyieh e de Nasrallah. Tudo para celebrar o homem que teria levado a organização ao que muitos árabes consideram uma vitória contra Israel na guerra do Líbano de 2006.

Neste mesmo conflito, Israel destruiu um memorial que o Hezbollah havia erguido na prisão de Khiam. O local, no passado, era usado para prender membros do grupo pela milícia libanesa Exército do Sul Líbano, aliados de Israel. Hoje é um monte de ruínas.

Para evitar que o memorial a Mughnyieh tenha o mesmo destino, o Hezbollah decidiu que a exposição é apenas temporária ela terminou em outubro.

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