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Imaginem se a saudita fosse iraniana

gustavochacra

11 de julho de 2012 | 13h38

no twitter @gugachacra

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A Arábia Saudita é o país mais conservador do mundo, onde as mulheres são tratadas como cidadãs de segunda classe. Não podem dirigir, praticar esportes ou mesmo andar nas ruas sem a companhia de um homem de sua família, além de serem obrigadas a cobrir todo o corpo. É praticamente um regime de Apartheid contra as pessoas do sexo feminino.

A monarquia de Riad também é a menos democrática de todo o mundo árabe. Não há eleições no país. Todo o poder está concentrado na gigantesca família Saud e as sucessões costumam ser fraternais. O rei Abdullah, que está doente, seria substituído pelo príncipe Nayef. Como este morreu semanas atrás, o novo herdeiro passou a ser o príncipe Salman.

Além da ausência de liberdades, a Arábia Saudita também reprime com violência minorias religiosas, como os xiitas na Província do Leste. Nesta semana mesmo, dois foram mortos por simplesmente protestarem. No ano passado, enviou tropas para Bahrain, onde auxiliou a monarquia local a massacrar protestos pró-democracia da oposição.

Apesar deste histórico de Apartheid contra as mulheres e um regime ditatorial religioso, os líderes sauditas são tratados como aliados no Ocidente e suas violações aos direitos humanos raramente são criticadas por governantes nos Estados Unidos e na Europa. Barack Obama, em seu discurso apoiando a Primavera Árabe, preferiu não mencionar a Arábia Saudita. Todos fecham os olhos desde que Riad colabore em questões internacionais, como na ajuda ao isolamento do Irã, e no fornecimento de petróleo.

O problema é que a elite saudita, especialmente os jovens, viajam e estudam em cidades liberais, como Beirute, Paris, Londres, Nova York, Washington, Berlim e Londres. Nestas metrópoles cosmopolitas, vivem com relativa liberdade e acabam naturalmente questionando o radicalismo de seus líderes. Acham absurda a proibição ao álcool, o combate ao homossexualismo e o tratamento dispensado às mulheres.

Uma das pessoas desta geração é a princesa Sara bint Talal bin Abdulaziz. Aos 38 anos, vive em Londres com seus quatro filhos adolescentes. Não usa véu e se auto-classifica como uma muçulmana liberal. Segundo disse em entrevista para a imprensa britânica, há uma campanha de perseguição e difamação contra ela em Riad. Agora, correndo o risco de ser deportada porque a Embaixada saudita se recusa a renovar o passaporte, pediu asilo político.

Claro, ela é da família real. Se fosse humilde, nem ouviríamos falar dela. Estaria sofrendo na repressão do Apartheid saudita. Sua história certamente ecoará em Londres. O governo britânico precisará colocar na balança o risco de estremecer as relações com Riad e a necessidade de respeitar os direitos humanos. Afinal, Sara pode servir de símbolo para outras sauditas que sofrem com a repressão em seu país. Agora, imaginem a gritaria se ela fosse iraniana?

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Também é comentarista do programa Em Pauta, na Globo News. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios