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Iraque tenta ser a primeira democracia do mundo árabe

gustavochacra

06 de março de 2010 | 23h25

Costumam dizer que não existe democracia no mundo árabe. E não existe mesmo. Isto não significa que todos os regimes sejam ditaduras repressoras. Há diferenças entre um país e outro. O Líbano realiza periodicamente eleições, com oposição forte e ativa. Também possui separação dos poderes e imprensa livre. O problema está no sistema sectário. O presidente precisa ser cristão maronita, o premiê, muçulmano sunita, e o presidente do Parlamento, xiita. O Parlamento e os ministérios também são divididos de acordo com a religião. Além disso, o Hezbollah, que também é um partido político, controla um Exército independente das Forças Armadas libanesas.

Os territórios palestinos tiveram uma experiência de eleições no começo de 2006. O Hamas saiu vencedor, mas os EUA, os principais países europeus e Israel não aceitaram o resultado por considerarem o grupo palestino como terrorista. Nas outras nações árabes, há variação em graus de democracia. Alguns são mais abertos, como o Qatar. Outros, mais fechados, como a Arábia Saudita. Porém nenhum deles é democrata.

O Iraque, que até sete anos atrás possuía o mais sanguinário ditador da região, Saddam Hussein, tenta se tornar agora o primeiro país árabe realmente democrático. O risco é acabar com um sistema sectário, como o Líbano. Afinal, como os libaneses, os iraquianos são divididos entre etnias e religiões. Eles podem ser curdos ou árabes. Os primeiros são majoritariamente sunitas. Já os árabes podem ser xiitas (maioria) ou sunitas, além de uma minoria cristã.

Nas eleições de hoje, há coalizões sectárias e outras seculares. O ideal seria que alguém do segundo grupo vencesse. E estas alianças são justamente as favoritas. Nuri al Maliki, atual premiê, lidera a Estado da Lei. O problema é que, nos últimos tempos, ele tem marginalizado seus aliados sunitas – o primeiro-ministro é xiita. Seu principal rival é do ex-premiê Ayad Alawi, da coligação Iraqiya, com presença tanto de sunitas e xiitas e talvez seja o melhor para o Iraque. O risco seria se um grupo mais conservador, como a Aliança Nacional Iraquiana, que inclui o líder radical xiita Moktada al Sadr vença. Será o encaminhamento para o isolamento dos sunitas e do incremento do sectarismo iraquiano.

Caso o Iraque se transforme em uma verdadeira democracia, poderá servir de modelo para outros países árabes, como a Síria e o Egito, que possuem sociedades parecidas. Seria, claro, mais complicado na conservadora Arábia Saudita e nos ricos Bahrein e Qatar. De qualquer forma, independentemente do resultado, não deixa de ser um momento histórico ver árabes votando com liberdade. Estas cenas, até agora, apenas foram vistas nos territórios palestinos e no Líbano.

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