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Israel deve pedir desculpas para a Turquia? Hillary e NY Times acham que sim

gustavochacra

03 Setembro 2011 | 14h43

O   @gugachacra  foi escolhido como um dos twitters mais influentes da América Latina pela revista Foreign Policy e é o único brasileiro incluído nesta categoria

A Turquia expulsou o embaixador de Israel em Ancara, suspendeu todos os acordos militares com os israelenses, não reconhecerá mais o bloqueio naval a Gaza e dará suporte a todas as vítimas da flotilha. De acordo com comunicado da Embaixada turca em Washington, o país pretende processar na Justiça soldados e oficiais de Israel e não descarta levar a questão para o Conselho de Segurança da ONU.

Em um claro desafio a Israel, “a Turquia tomará todas as medidas necessárias para garantir a liberdade de navegação no Mediterrâneo oriental”, o que implica em permitir que barcos turcos viajem para Gaza, furando o bloqueio de Israel e colocando os dois países em rota de colisão, segundo afirmou o chanceler turco, Ahmet Davutoglu.

 A decisão adotada pelo governo turco ocorre depois de publicação anteontem de relatório da ONU sobre a flotilha de Gaza, realizada em maio de 2010, dizendo que o bloqueio de Israel ao território palestino é legal, mas a reação dos militares israelenses, mesmo sendo recebidos com hostilidade e violência por membros da tripulação, foi excessiva, culminando na morte de nove turcos. De acordo com a investigação das Nações Unidas, cinco dele foram alvejados por trás. Os soldados israelenses também dispararam contra órgãos vitais de sete vítimas múltiplas vezes.

Segundo a Turquia, Israel deveria se desculpar publicamente pela morte dos turcos e pagar indenizações. “Reafirmamos que não normalizaremos as relações com os israelenses enquanto não recebermos um pedido de desculpas e o pagamento de compensação pelo que eles fizeram”, diz comunicado da Embaixada turca nos Estados Unidos.

Em Israel, o gabinete do primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, buscou evitar atritos ao publicar comunicado dizendo que “o Estado de Israel quer encontrar uma forma de superar as discordâncias com a Turquia e se esforçará neste sentido”. O governo também lamenta as mortes dos nove turcos na flotilha, mas não aceita pedir desculpas pelos atos de seus soldados. Segundo Israel, eles agiram em legítima defesa. Mas não houve reação às medidas anunciadas pela Turquia.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, se reuniu ontem com Davutoglu para tentar contornar a situação e evitar um agravamento ainda maior da crise, mas não obteve sucesso. Ela também tem insistido para que Netanyahu peça desculpas à Turquia. Em editorial, o New York Times agiu na mesma linha. O conflito entre os dois países coloca os americanos em uma situação delicada por ambos serem aliados importantes de Washington na região e são fundamentais para a estabilidade do Oriente Médio e do Norte da África durante a Primavera Árabe. Tanto a Turquia quanto Israel possuem fronteira com a Síria. E os turcos são o braço mais importante na nova estratégia americana para conter o Irã.

Nos últimos meses, os EUA vinham tentando uma reaproximação entre os dois países e, até a divulgação do relatório da ONU, haviam conseguido um relativo sucesso.

O bloqueio a Gaza foi imposto depois de o Hamas assumir o controle do território e intensificar uma campanha de lançamentos de foguetes contra o sul de Israel. De acordo com os israelenses, esta era uma das poucas alternativas para impedir o contrabando de armas para a organização palestina através do Mediterrâneo. Os palestinos e ativistas pró-Palestina ao redor do mundo classificam o bloqueio como punição coletiva. A ONU, conforme diz o relatório, acha o bloqueio legal.

A Turquia sempre foi um dos principais aliados de Israel no Oriente Médio desde a independência do país, em 1948. Por décadas, as duas nações mantiveram alianças estratégicas nas áreas de inteligência e militar. Alguns dos principais destinos de turistas israelenses eram as praias turcas e Istambul.

Mesmo com a chegada do AKP, de viés mais islâmico, ao poder em Ancara, no início da década passada, não provocou atrito. Mas as relações começaram a se deteriorar depois da Guerra de Gaza, em janeiro de 2009, quando o premiê da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, discutiu publicamente com o presidente de Israel, Shimon Peres, em Davos, na Suíça.

Os turcos, na época, mediavam a paz entre Israel e a Síria e estavam próximos de um acordo. O problema é que, dias antes de tornar as negociações públicas, os israelenses iniciaram a campanha contra o Hamas em Gaza, sem consultar ou avisar a Turquia, irritando Erdogan.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios