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Israel deveria negociar com o Hamas? Na verdade, já negociou

gustavochacra

25 de abril de 2014 | 11h43

Negociações se dão com inimigos, não apenas com amigos. A Espanha negociou com o ETA, uma organização terrorista que matou centenas de civis espanhóis. A Grã Bretanha negociou com o IRA, uma organização terrorista de viés religioso, que matou centenas de civis. E Israel negociou com a OLP, uma organização responsável no passado por atentados terroristas. Estas três organizações abdicaram de suas armas.

Por que Israel não negociaria com o Hamas, outra organização terrorista responsável por centenas de atentados? A questão de o Hamas não reconhecer Israel não se sustenta. A negociação teria justamente este objetivo – o do reconhecimento. Além disso, há membros no governo israelense como Naftali Benett e Danny Ayallon que não reconhecem o direito de os palestinos terem um Estado viável, apesar de Benjamin Netanyahu reconhecer. E a violência? O Hamas uma série de vezes acertou tréguas negociadas com Israel e também a libertação de um soldado israelense sequestrado. Isto é, Israel e o Hamas já negociaram cessar-fogos em Gaza. Por que seria diferente?

Na verdade, a questão é se o Hamas está disposto a negociar com Israel e acataria um acordo se este for negociado e firmado por Abbas. Os membros da coalizão de Netanyahu que não reconhecem o direito de os palestinos terem um Estado aceitariam este caso Netanyahu chegasse a um acordo. Esta é a diferença. O Hamas nunca indicou que aceitaria um acordo assinado por Abbas.

Se o grupo mudar de postura, o acordo entre o Fatah e o Hamas é um avanço no médio e longo prazo, embora não no curto. Por enquanto, o Hamas ainda não indicou se apoia negociações. Enquanto não o fizer, Netanyahu tem razão em não negociar.

O mais simples, neste momento, seria montar a seguinte estratégia para o processo de paz e esta parece ser a via de Abbas (talvez com o aval do governo Obama e mesmo de Netanyahu) –

. seria formado um governo tecnocrático, sem a presença do Hamas e do Fatah, mas com Abbas de presidente

. as negociações serem retomadas por Abbas, com o aval do Hamas, mas sem a participação direta do Hamas

. o Hamas, no fim das negociações, poderia ingressar na OLP, em um sinal de que aceita todos os acordos vigentes entre Israel e os palestinos

. o acordo seria com todos palestinos, e não apenas com uma facção

Notem que nunca houve um momento tão propício para o Hamas ceder. O grupo está isolado em Gaza. Depois de trair Assad na Síria, perdeu o apoio também do Irã e do Hezbollah. Apostou na Irmandade no Egito e também perdeu. Erdogan fica apenas na retórica do apoio, mas valoriza, no fim das contas, mais seus laços com Israel. O Qatar também se distanciou. Não sobrou ninguém e, se o Irã fizer um acordo com os EUA, se tornará ainda mais complicado

Tenham certeza de que, apesar de dizerem o contrário, há contatos sim dos negociadores palestinos tanto com Israel como com os EUA. Todos sabem o que está ocorrendo nos bastidores e sabiam de antemão desta reaproximação Fatah-Hamas. 

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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