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Jovens da Turquia vivem entre a queda de Constantinopla e a conquista de Istambul

gustavochacra

10 de março de 2009 | 09h08

Orhan Pamuk é o grande escritor turco. Prêmio Nobel de Literatura, ele escreveu obras como “Neve”, “Meu nome é Vermelho” e “Istambul”. Neste terceiro livro, Pamuk relata episódios de sua vida nesta cidade que foi capital do Império Bizantino e, depois, do Otomano. Para o escritor, os bizantinos sempre foram associados “com padres grego-ortodoxos barbudos, aquedutos que ainda existem na cidade, com a Haia Sophia. Para mim, eram resquícios de uma época tão distante que não havia necessidade de saber sobre isso”. Mais adiante, Pamuk afirma que, certa vez, a sua mulher foi criticada em uma aula na Universidade Columbia, de Nova York, porque escreveu “conquista de Istambul” e não “queda de Constantinopla”.

Para os turcos, o que ocorreu em 1453 foi uma conquista. E esta imagem não se alterou nem mesmo com a revolução de Mustapha Kemal Ataturk, que buscou “ocidentalizar” a Turquia, ao mesmo tempo em que não deixou de lado a história otomana, associando-a à turca. Este é um dos motivos para a relutância no debate sobre o genocídio armênio, cometido durante o Império, e não na República. E também para os turcos retratarem o episódio que simbolicamente marca o fim da Idade Média como a conquista de Istambul.

Hoje, estes símbolos – Constantinopla (Ocidente) e Istambul (Oriente) – seguem como o centro do debate na Turquia. A elite tradicional e secular turca é idêntica a de outros países mediterrâneos europeus. Certamente menos religiosa do que a italiana e a espanhola.

Jantei com quatro jovens turcos, da elite local, não religiosos. Uma tem pais divorciados. Um casal que está noivo já vive junto. Uma outra mora com o namorado. Todos bebem a cerveja Efes, tradicional no país. Frequentam bares onde jovens se beijam publicamente e escutam rock e música eletrônica. Não jejuam no Ramadan (mês sagrado para os islâmicos), não rezam uma vez sequer ao dia – se é que rezam uma vez ao ano – nunca foram a Meca e nem pretendem ir. As meninas não usam véu. Mesmo assim, se perguntados, dizem que são muçulmanos. Tanto quanto um brasileiro que nunca vai à missa, não crismou e até mesmo não foi batizado diz ser católico. De uma certa forma, é o sonho de Ataturk. Secularizar sem cristianizar a Turquia.

O passado otomano e islâmico está na diante de todos. Em Nisantasi, o equivalente aos Jardins ou a Recoleta de Istambul, há uma mesquita, bem conservada, mas sem ninguém dentro. Usada quase que apenas para cerimônias. Não muito diferente do que ocorre na Nossa Senhora do Brasil, no Jardim Europa, que enche apenas em dias de casamento.

O problema é que a Turquia tem uma população religiosa em uma área onde ser islâmico ou ser secular implica em estar mais próxima da Europa ou do Oriente Médio. Há muçulmanos conservadores não apenas nas classes mais baixas, mas também na elite. Mais do que isso, eles estão no poder. O premiê Racep Tayyip Erdogan é um símbolo desta camada. Os filhos desta elite religiosa não bebem e tampouco praticam sexo antes do casamento. Divórcio é tabu. As mulheres usam véus. E eles pretendem remover algumas das leis impostas por Ataturk. Afinal, na visão de Erdogan, por que os muçulmanos seculares têm o direito de impor as suas regras, tais como proibir o uso do hijab em universidades? Ele insiste que há uma diferença – o objetivo não é obrigar o uso do véu, e sim acabar com a proibição. Extamente como nos Estados Unidos. O argumento contrário, dos mais seculares, é que não dá para comparar os dois países. O risco, no longo prazo, é que comecem a reduzir a liberdade dos não religiosos, impedindo, por exemplo, o uso de mini-saia na sala de aula.

Independentemente de quem estiver certo, os jovens turcos, politizados como libaneses e israelenses, afirmam que o lado religioso está bem representado por Erdogan, enquanto o outro está dividido e sob a liderança do enfraquecido partido CHP. As mudanças, para eles, apenas não são mais rápidas porque o Exército – bastião de Ataturk – não permitiria. Por enquanto, eles ainda vivem entre Constantinopla e Istambul.

Youtube é censurado

Não é apenas a Síria que censura o youtube dos países que visitei. A Turquia também proíbe o acesso ao site de vídeos. Obviamente, os jovens turcos já bolaram formas de burlar a proibição através de outros endereços na internet onde o IP não é exibido

Gilad Shalit

Parecia certo, na época das eleições, que a libertação de Shalit era questão de dias. Mas as negociações não avançaram. Mediadores culpam tanto Israel quanto o Hamas. Não é fácil fazer uma troca de prisioneiros. O Hamas sabe que esta é uma oportunidade única para conseguir libertar os seus principais líderes que estão na prisão israelense. E não quer conseguir menos do que o Hezbollah na sua troca com os israelenses. Israel, por outro lado, enfrenta resistências internas. Ao mesmo tempo que a sociedade israelense está disposta a pagar um preço alto para soltar Shalit, nem que sejam centenas de palestinos, a maioria da população não aceitaria ver terroristas envolvidos em atentados contra civis nas ruas novamente.

Viúva de 75 anos é condenada a 40 chicotadas

Segundo o “New York Times”, uma mulher de 75 anos foi condenada a quatro meses de prisão e 40 chicotadas pelo simples fato de estar conversando com jovens que não eram seus parentes. Depois, incluem a Arábia Saudita entre os países moderados do Oriente Médio e o Líbano e a Síria entre os radicais. Nunca uma coisa dessas aconteceria em Beirute

Síria liga Israel a 11 de Setembro

A agência de notícias Sana, do governo sírio, afirma que Israel tem ligações com o 11 de Setembro. A base para a informação é a prisão, no Líbano, de um libanês que espionava para o Mossad há mais de 20 anos no vale do Beqa. Conforme reportagem no New York Times e também uma que fiz no Estadão, ele é primo de um dos envolvidos nos atentados contra Nova York e Washington. No entanto, a Justiça libanesa não vê nenhuma ligação do espião com o primo. De qualquer forma, a teoria da conspiração é tema comum em Beirute, Amã, Cairo e Damasco.

Blog da Argentina

Ariel Palacios, correspondente de “O Estado de São Paulo” em Buenos Aires, agora tem o blog “Hermanos” aqui no portal do Estadão. Vale a pena ler. Conheço bem o Ariel que é meu amigo dos meus tempos de Argentina. Aprendi muito com ele, apesar de, na época, estarmos em jornais concorrentes. Sem dúvida, é o jornalista brasileiro que mais conhece a Argentina


Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores. Não é permitidio postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. Neste caso, “religião, juventude eliteratura na Turquia”, “troca de prisioneiros envolvendo Israel e palestinos”, “censura”, “Justiça saudita” e “teoria da conspiração envolvendo apenas o caso do agente preso no Líbano”

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