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Líbano comemora 65 anos de independência sem ser independente

gustavochacra

22 de novembro de 2008 | 14h21

O Líbano celebra hoje 65 anos da sua independência. Foi no dia 22 de novembro de 1943 que o presidente Bechara al Khoury e o premiê Riad al Solh foram libertados pelos franceses da prisão na fortaleza de Rachaya. Cinco anos mais tarde, o Líbano enfrentava a sua primeira guerra contra o recém criado Estado israelense em 1948, lutando ao lado de outros países árabes. De herança, milhares de refugiados palestinos que hoje somam quase 400 mil em todo o território libanês sem terem ainda sido integrados à sociedade libanesa. Dez anos depois, em 1958, a segunda guerra, desta vez civil.

Os resultados não foram tão desastrosos, como na que estava por vir, em 1975. Em um conflito que arrasou Beirute e a maior parte do Líbano, dezenas de milhares de pessoas foram mortas. Em uma teia de alianças e traições, a guerra envolveu facções cristãs inimigas, grupos sunitas, xiitas, drusos, uma série interminável de milícias palestinas, guerrilheiros de esquerda, Israel, Síria e forças de paz da França, dos EUA e de outros países.

Para muitos, a data do fim do conflito é 1990, quando os libaneses assinaram os Acordos de Taif. Mas, nessa época, o Líbano ainda vivia a guerra civil no esquecido sul do país. Israelenses e seus aliados cristãos – junto com alguns xiitas – do grupo auto-denominado Exército do Sul do Líbano combatiam guerrilheiros do Hezbollah. O confronto terminaria apenas em 2000, com a retirada israelense e a fuga de muitos de seus aliados libaneses. Além do sul ocupado por Israel, o Líbano, nesse período, deixava de ser independente no restante do território. Por 15 anos, a partir de 1990, a Síria controlou a política libanesa, além de ocupar militarmente o país. Quem não fosse aliado sírio, não tinha vez no Líbano.

Rafik Hariri havia sido por muitos anos o homem de Damasco em Beirute. Mas, em 2004, rachou formalmente com o regime de Bashar al Assad e passou a liderar a oposição que, basicamente, ainda lutava pela distante independência libanesa. O ex-premiê pagou com a própria vida por esta luta em fevereiro de 2005. Os libaneses foram às ruas no que jornalistas estrangeiros descreveram como “Revolução dos Cedros”. Meses depois do atentado, após centenas de milhares de pessoas terem saído às ruas, as tropas sírias desocupavam o Líbano e, pelo menos temporariamente, a Síria estava fora do Líbano.

Não demorou nem um ano a paz dos libaneses. Afinal, o país ainda não estava totalmente independente. O sul libanês, após a partida dos israelenses e de seus aliados libaneses, não ficou nas mãos do Estado. Na verdade, o Hezbollah passou a exercer as funções de governo em toda a região. Aproveitando-se desta autonomia, fez a mesma coisa que tanto criticava em Israel. Invadiu o território israelense, sequestrou dois soldados e matou outros. Israel respondeu com uma ampla operação militar que alvejou tanto a “Hezbollândia” como o Líbano propriamente dito. Mais uma guerra na história libanesa. Mais uma vez o país não ficava independente.

Meses depois, o mesmo Hezbollah, com apoio da Síria e do Irã, ao lado dos seus aliados cristãos da seguidores de Michel Aoun – ironicamente inimigo de Damasco no passado -acamparam nas ruas de Beirute e forçaram o Parlamento libanês a ficar fechado por mais de um ano. No primeiro semestre deste ano, o país não tinha nem presidente. Após decidir intervir na Hezbollândia, tentando eliminar o sistema de comunicação de grupo e acabar com controle do grupo sobre a segurança do aeroporto, o Estado libanês batia de frente com o Hezbollah. Mas não deu certo. Em poucas horas, o Hezbollah tomou as ruas de Beirute e, se quisesse, assumiria o poder. Todas as facções foram ao Qatar e chegaram a um acordo. Hoje o Líbano tem presidente, Michel Suleiman. E todos tentam formar um governo de união nacional.

O problema é que o Líbano ainda está longe de ser independente. Dentro do território, que já é menor do que o Sergipe, existe um outro país, com Exército, sistema educacional, rede de TV e, pior, política externa próprios. Esta política externa, dizem alguns, pode mais uma vez, 65 anos depois da independência, culminar em uma nova guerra. Com o país dos Cedros, novamente, se tronando sinônimo de destruição. E sem ser independente, mesmo 65 anos depois.

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